Há quem diga que o futebol é o ópio do povo. E num tempo em que os noticiários parecem uma sucessão interminável de guerras, divisões, radicalismos e conflitos, o futebol está a oferecer-nos uma imagem diferente da humanidade. Uma imagem que, convenhamos, raramente abre telejornais ou ocupa as manchetes mais estridentes. Enquanto as redes sociais insistem em mostrar-nos os piores exemplos da condição humana e os algoritmos recompensam a indignação, a raiva e o choque, milhões de pessoas espalhadas pelo planeta vão assistindo a algo que desafia essa narrativa. No decorrer destes primeiros dias de competição já vimos mexicanos a lançarem adeptos sul-coreanos ao ar em celebração conjunta. Neerlandeses a fazerem o mesmo com japoneses, entre gargalhadas e abraços. Jogadores de Curaçau e da Alemanha reunidos em oração após noventa minutos de competição intensa. Canadianos e bósnios a confraternizarem nas ruas, partilhando cervejas, fotografias e histórias de vida como se fossem velhos amigos.
São imagens simples. Talvez até banais para alguns. Mas encerram uma verdade poderosa. A necessidade de não nos vermos permanentemente como inimigos uns dos outros, nem uma constante ameaça. É evidente que existem problemas. Sempre existiram. Há guerras, há extremismos, há intolerância e há quem procure transformar diferenças em trincheiras. Precisam que tenhamos medo uns dos outros. Precisam que acreditemos que aquilo que nos separa é maior do que aquilo que nos une. Mas basta olhar para as bancadas deste Mundial para perceber o contrário. O mexicano não vê um inimigo no coreano. O canadiano não vê ódio no bósnio. O alemão não vê um estranho no jogador de Curaçau. Veem uma pessoa. Um colega de profissão. E talvez essa seja a mais importante lição deste torneio.
Por baixo das bandeiras, dos hinos, das cores e das fronteiras, existe uma natureza humana que continua a inclinar-se para a empatia. Uma predisposição quase instintiva para o encontro, para a curiosidade e para a celebração conjunta. O futebol, com todas as suas imperfeições, continua a ser um dos poucos idiomas verdadeiramente universais do planeta. Não exige tradução. Não pergunta pela nacionalidade. Não pede vistos nem passaportes. Apenas cria pontos de contacto. Num mundo onde tantos lucram com a divisão, o Mundial vai-nos recordando, dia após dia, que os seres humanos não nasceram para se odiarem. Nascemos para nos reconhecermos uns nos outros. E talvez seja precisamente por isso que aquelas imagens de adeptos desconhecidos a abraçarem-se valham mais do que mil discursos políticos.
Porque nos mostram aquilo que somos quando ninguém nos convence do contrário. Pessoas. Simplesmente pessoas. E isso, nos dias que correm, é uma notícia extraordinária. Essa é a verdadeira magia deste Mundial e de tantos outros que o antecederam. Ver a forma como se celebra, a emoção, o espetáculo de cores, as danças, a música e os rituais. Como se colocam de parte algumas animosidades antigas, alguns “ódios de estimação” e nos conseguimos envolver à volta de um objetivo comum. A diversão, o apoio ao nosso país e a vontade de convivermos com pessoas de outras nações e culturas. Pessoas de diferentes cores e de distintas latitudes, todas reunidas com o único propósito de ter uma experiência única, por amor a um símbolo por orgulho em pertencer e com essa disponibilidade para receber dos outros um brinde, um abraço ou uma frase de alento. Essa é a razão pela qual gosto tanto desta competição, porque nos traz exemplos incríveis e nos ajuda a limpar a cabeça. Que assim seja até ao fim e que nós, por cá, tenhamos muitos motivos para sorrir. Que possamos fazer a festa e que seja mais um de muitos motivos para nos sentirmos orgulhosos de ser Portugal, esquecendo clubismos, partidos ou raças. Juntos pelo nosso país. Como dizia o famoso personagem José Esteves: «Vamos lá cambada!».
A descobrir:
Já que falamos em Mundial, deixo aqui algumas sugestões perfeitas para ver o jogo na capital nas melhores condições, porque o futebol tem outro sabor quando é visto em comunidade. O The Couch Sports Bar tem ecrãs espalhados pelos diferentes cantos do espaço, um dos sítios mais requisitados por turistas de diversas nacionalidades que por ali se juntam para ver “a bola”. Também o FYSH, restaurante em Belém, decidiu instalar um ecrã gigante na esplanada com vista sobre o Rio Tejo; mas também pode optar pelo Terreiro do Paço, onde se encontra o “Lisboa Football Arena”.
Música para dançar no fim de semana:
Dai Dai – Shakira, Burna Boy