As políticas do presidente norte-americano estão a ter repercussões enormes no meio artístico do país. Aquele que foi nas últimas décadas o epicentro do fenómeno cultural a nível mundial com a captação das grandes produções, alavancado pela força de Hollywood mas também assente na pujança da música, sobretudo porque ali se encontram as grandes empresas discográficas, começa agora a sentir de forma indelével o resultado de algumas decisões de Donald Trump, que, diga-se de passagem, sempre encarou de frente atores e cantores que se têm manifestado publicamente contra o seu ‘reinado’. Talvez por isso a Casa Branca tenha decidido taxar com tarifas de 100% filmes produzidos no estrangeiro, numa tentativa desesperada por segurar uma indústria que vai perdendo sucessiva influência para outras latitudes como a Austrália, o Reino Unido ou mesmo o vizinho Canadá.
De facto há muito que o meio artístico vem demonstrando uma enorme resistência (já desde o primeiro mandato) às decisões que vêm sendo tomadas, não só no que concerne à área cultural mas sobretudo em questões sociais. Nomes fortes como Ellen DeGeneres, Rosie O’Donnell, Richard Gere, America Ferrera, George Clooney ou Sophie Turner já deixaram os Estados Unidos para rumarem a diversos países europeus e muitos outros ameaçam seguir o mesmo caminho, como são os casos de Kristen Stewart («pretendo fazer filmes na Europa e enfiá-los pela goela abaixo do povo americano») ou Roger Waters, que admite vir viver para Portugal. Aliás, para quem vive no nosso país é cada vez mais comum cruzar-se com uma estrela norte-americana na rua, alguns com casa de férias, outros que vêm com o intuito de se mudar de vez. De Michael Fassbender a Jamie Dornan, Luke Evans, Madonna e muitos outros que veem o nosso pequeno ‘retângulo’ como um refúgio perfeito pela segurança, clima e privacidade.
Mas voltando aos Estados Unidos, caiu que nem uma bomba a decisão de um dos mais famosos músicos da atualidade de cancelar a sua Tour em protesto contra as políticas de deportação da administração Trump. Falo do artista porto-riquenho Bad Bunny, ouvido frequentemente na maioria dos bares e restaurantes deste país e que virá atuar no Estádio da Luz a 26 e 27 de Maio deste ano. «Diz ter medo de que, como artista latino, acabe atraindo uma multidão sujeita às investidas do ICE, a temida polícia imigratória do governo Donald Trump», escreve a Veja. Mas não é caso isolado. O grupo africano Tiraniwen cancelou uma extensa digressão depois dos EUA terem anunciado restrições ao Mali, seu país de origem, assim como o DJ Darius Syrossian, o musical Hamilton ou o septeto de jazz The Cookers. Alguns cancelaram atuações no antigo Kennedy Center recém-nomeado Trump-Kennedy Center em protesto contra a mudança de nome. Foram os casos de Béla Fleck, Rhiannon Giddens, Chuck Redd, Kristy Lee e a companhia Doug Varone and Dancers.
Se este é o cenário para 2026, prevê-se que em 2027 muitos outros tomem as mesmas medidas, escolhendo sobretudo países europeus periféricos como alternativa para as suas principais Tours. É por isso de esperar que no próximo ano tenhamos ainda mais espetáculos de grandes nomes internacionais e que Portugal seja assim um alvo do Turismo Musical e Artístico de um público norte-americano que por certo não quererá perder as atuações das suas principais estrelas. Um público com elevado poder de compra e que não se importa de pagar um preço que para a realidade portuguesa será muito bem vindo. Veremos que surpresas nos reserva 2027 sendo certo que a continuar por este caminho grandes produções e artistas nos escolherão para os seus próximos trabalhos.
A descobrir:
O pintor Júlio Pomar foi, para muitos, um dos principais nomes da arte contemporânea portuguesa. Celebra-se este ano o centenário do seu nascimento, o que por si só é motivo de grande interesse. Celebrar os artistas portugueses que nos enchem de orgulho deve ser um ato simbólico de agradecimento mas também de patriotismo para que não se endeusem só os que aparecem vindos de fora. No CAMB será apresentada uma exposição com uma seleção de obras de 1944 a 2004, que percorre praticamente todas as fases do artista. Também no MAAT e no Atelier-Museu Julio Pomar decorrerão iniciativas ao longo do ano que valerão por certo a pena visitar e descobrir.
Uma música para dançar no fim de semana:
Jamaican (Bam Bam) Extended Mix - Hugel, SOLTO (FR)