Um pequeno luxo que quase desaprendeu de existir. Não custa dinheiro, não exige reservas, não depende de tecnologia e, ainda assim, tornou-se raro. Os italianos deram-lhe um nome que soa a música, Dolce Far Niente. Vivemos numa época em que descansar parece precisar de justificação. Se estamos sentados numa esplanada sem olhar para o telemóvel, alguém pergunta se está tudo bem. Se tiramos uma tarde para caminhar sem destino, parece que desperdiçámos tempo. Se ficamos simplesmente a contemplar o mar, há sempre quem ache que podíamos estar a responder a e-mails, a fazer exercício ou a aprender uma nova competência. Lembro-me de uma vez, numa das minhas viagens a Espanha, de um amigo local gabar-se de ter muito tempo livre. Por cá escondemos com vergonha.
A produtividade tornou-se uma religião silenciosa. O valor de uma pessoa mede-se, muitas vezes, pela quantidade de tarefas que consegue encaixar num único dia. Dormimos menos para produzir mais. Corremos para chegar mais depressa. E, no fim, descobrimos que nem sabemos exatamente para onde íamos. É aí que o conceito italiano ganha uma importância extraordinária. O Dolce Far Niente não é preguiça. Não é falta de ambição. Muito menos é desistir da vida. É precisamente o contrário, é voltar a habitá-la. Os italianos compreenderam algo que muitos países mais “eficientes” se esqueceram. Há uma diferença enorme entre viver e apenas funcionar. Sentar-se numa praça a beber um café sem olhar para o relógio, conversar durante horas à mesa, apreciar um pôr do sol ou ouvir o silêncio são momentos que não produzem riqueza económica, mas produzem algo muito mais difícil de medir, o equilíbrio.
Portugal, curiosamente, tem todas as condições para abraçar esta filosofia. Temos um clima invejável, quilómetros de costa, aldeias onde o tempo ainda caminha devagar, praças, jardins e esplanadas. Herdámos dos nossos avós o hábito da conversa longa, das almoçaradas entre amigos e do café sem pressa. No entanto, aos poucos, fomos importando um modelo de vida onde estar ocupado passou a ser sinónimo de sucesso. É uma contradição curiosa. Vivemos num dos países mais bonitos da Europa, mas muitas vezes não temos tempo para o contemplar. Talvez por isso os problemas ligados à ansiedade, ao esgotamento e à saúde mental tenham conquistado tanta expressão. O cérebro humano não foi desenhado para estar permanentemente ligado. Também precisa de espaços vazios, de momentos sem objetivos, de pausas onde a criatividade e a serenidade possam respirar.
Os neurocientistas explicam que é precisamente nesses momentos de aparente inatividade que o cérebro organiza memórias, cria ligações inesperadas e recupera energia emocional. Afinal, não fazer nada pode ser uma das atividades mais importantes do dia. Talvez devêssemos começar a ensinar isso às crianças. Não preencher todos os minutos com atividades. Não transformar cada fim de semana numa maratona de compromissos. Ensinar que olhar para as nuvens também é aprender. Que estar em silêncio também é crescer. Porque há dias em que o maior objetivo não devia ser produzir mais, mas sentir mais. E talvez seja precisamente essa a verdadeira definição de qualidade de vida: não a quantidade de coisas que fazemos, mas a capacidade de apreciar aquelas que não precisam de ser feitas.
A descobrir:
Um dos mais icónicos espaços do Mónaco chegou este ano ao Algarve e já se sente a sua força com dias completamente cheios e dificuldade em reservar mesa. Com o nome do seu fundador, Sass, instalou-se na Quarteira, junto ao mar, numa cabana muito bem decorada e apresenta sabores do Mediterrâneo que merecem ser experimentados. Das lulas fritas ao tiradito de Robalo, da salada Chop Chop ao entrecosto a Cabana Sass, promete ser um dos spots de verão.
Para ouvir este fim de semana: