quinta-feira, 11 jun. 2026

Continuo a apaixonar-me por esta cidade

Lisboa continua a seduzir-me, não pela sua grandiosidade mas pela intimidade.

Lisboa tem o dom raro de me irritar profundamente…e cinco minutos depois lembrar-me porque nunca a consigo deixar. Na semana passada regressou o sol (finalmente!) e com ele regressaram também as minhas caminhadas a pé, desta vez numa misto de necessidade (carta de condução suspensa 3 meses por uma multa de excesso de velocidade em 2022 – sim 2022!) com o prazer habitual que me faz percorrê-la vezes sem conta, de Campo de Ourique até à Baixa e dela até outra colina qualquer. A cidade tem muitos defeitos. O trânsito cansativo que já abandonou a hora de ponta para passar a “dias em pontas”, as rendas que empurram os locais para fora, a parafernália de tuk-tuks, trotinetes e afins, que se multiplicam como gaivotas, os prédios comprados para fotografia de turista e não para vida de gente e o lixo que se amontoa em cada esquina sem que alguém consiga resolver o assunto.

Mas depois há um fim de tarde.

Há sempre um fim de tarde.

Depois de reuniões que me preencheram o dia, lá fui eu, do Jardim da Parada ao jardim da Estrela, com a presença habitual dos seus pavões, e dali até à Praça das Flores, onde gosto sempre de parar para ver a comunidade de estrangeiros residentes que por ali se junta à procura de diversão e dois dedos de conversa. Subi em direção ao Príncipe Real, passei pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara e logo após o largo Trindade Coelho, comecei a descer a enorme e bonita escadaria que passa a Rua Oliveira ao Carmo, tendo parado um pouco depois na esplanada do Café Buenos Aires, onde comecei a tirar notas para esta crónica com a vista maravilhosa que nos leva até ao castelo como inspiração. Maio é talvez o mês mais bonito para se estar por aqui. Os dias são maiores, o Tejo ganha aquele brilho entre o dourado e o prata e sente-se aquela boa energia das festas populares mesmo à porta. A azáfama dos preparativos para o Santo António confunde-se com a roupa estendida nas janelas, alguns poucos empregados que ainda conhecem os clientes pelo nome, velhos a jogar cartas ou dominó e as fachadas antigas que ao final da tarde transformam pedra velha em ouro puro.

Madrid pode impressionar, Paris acelera-nos o coração e Nova Iorque esmaga-nos com a sua dimensão. Mas Lisboa tem “qualquer coisa” que ainda a torna especial. É certo que o excesso de turismo e alguma imigração desregrada lhe ameaçam a alma, mas a mim continua a seduzir-me, não pela sua grandiosidade mas pela intimidade. Pela ideia de que a cidade me conhece mesmo quando estou sozinho, como é o caso. A verdade é que ela não vive apenas nos monumentos ou nos postais. Vive nos detalhes que ainda perduram mesmo que cada vez mais ameaçados pelas lojas de souvenirs que a enchem de “mais do mesmo”. Vive na pastelaria de bairro que teima em abrir antes do amanhecer. Na senhora que rega as plantas na varanda. No empregado da tasca que grita pedidos sem perder o humor (umas vezes bom outras vezes mau, mas que não deixa de ter piada por isso). Nos degraus gastos de séculos de passos humanos.

A cidade precisa urgentemente de soluções, dos transportes à especulação. Precisa de equilíbrio entre modernidade e as tradições que lhe dão identidade cultural. Não pode transformar-se apenas numa montra bonita para visitantes de passagem ou num parque de diversões. Mas enquanto houver sol sobre estas sete colinas, enquanto existirem instantes mágicos como eu senti naquele final de tarde eu continuarei a apaixonar-me por ela. Mesmo que jure todos os dias que já não a suporto. Mesmo que ela esteja a mudar, nem sempre da forma correta, há qualquer coisa nesta cidade…

A descobrir:

Neste meu périplo acabei por “estacionar” no Café Buenos Aires. Um espaço que frequento há anos, na altura fascinado por uma salada com alface, tomate, queijo bleu e da ilha, batatas fritas, presunto e um ovo a cavalo. Agora vou lá pela forma simpática com que me recebem e por uma salada de endívias, pera e roquefort que antecede umas tiras de carne argentina, grelhada que acompanha com chimichurri. Mas o melhor de tudo é a vista, partilhada na imagem que acompanha a crónica e que foi tirada nesse dia. Experimente-a com esta música.

Música para dançar no fim de semana:

September Fields – Frazey Ford