Há qualquer coisa de discretamente revelador no facto de, em pleno tempo de notificações permanentes, agendas fragmentadas e atenção repartida por múltiplos ecrãs, começarem a surgir, com inesperada vitalidade, pequenos grupos de pessoas que se sentam à volta de um livro e aceitam ficar ali, durante duas horas, a falar de uma mesma história. Sem urgência, sem pressa de concluir, sem a ansiedade de transformar imediatamente uma opinião em conteúdo. Uns dirão que é contra ciclo, outros que podemos estar a vislumbrar um novo tempo. Talvez os clubes de leitura tenham regressado precisamente por isso, porque oferecem uma rara forma de resistência tranquila ao ruído do presente ou até uma projeção do futuro.
Não se trata apenas de ler. Trata-se de voltar a escutar. Há poucos anos, a ideia de reunir amigos ou desconhecidos num fim de tarde para discutir um romance pareceria um gesto quase anacrónico, reservado a nichos de “nerds” ou a bibliotecas silenciosas. Hoje, multiplicam-se em livrarias, cafés, hotéis, espaços culturais e até em casas particulares. Há quem leve frases sublinhadas, quem apareça sem ter terminado o livro e quem vá sobretudo pela conversa, que muitas vezes começa na literatura e acaba inevitavelmente no modo como vivemos.
Talvez porque um livro ainda exija aquilo que o digital quase nunca pede, permanência. Não há atalho possível para compreender verdadeiramente uma personagem, nem algoritmo que substitua o tempo de entrar numa frase e ali permanecer alguns segundos a mais. Tive oportunidade de o experimentar há umas semanas e confesso que me fez bem melhor do que à partida podia supor. Entrei meio que desconfiado, um tanto ou quanto envergonhado mas quando me deixei levar, inesperadamente fluiu.
Curiosamente, esse mesmo desejo de permanência parece estar também a devolver algum fôlego aos cinemas independentes. Enquanto as plataformas oferecem tudo em abundância e a qualquer hora, cresce um certo fascínio pelo ritual de escolher um filme e sair de casa para o ver numa sala pequena, onde ainda há cartazes desenhados ao pormenor, cadeiras que guardam o rumor de outras sessões e um silêncio inicial que continua a ter qualquer coisa de fascinante. Não é apenas nostalgia. Há uma geração nova a descobrir o prazer de ver um filme sem interrupções, sem pausas para responder a mensagens, sem a tentação de avançar uma cena menos imediata. Nos cinemas independentes, o filme recupera uma autoridade que em casa se dilui facilmente entre o frigorífico, o telefone e a distração permanente.
E talvez seja precisamente essa disputa silenciosa pela atenção que também se joga nos concertos de hoje. Basta olhar à volta. Metade do público levanta o telemóvel antes mesmo do primeiro refrão. Há ecrãs acesos por todo o lado, braços suspensos, pequenas molduras iluminadas onde o espetáculo parece precisar do digital para existir. Filma-se quase tudo, talvez por receio de que a memória, por si só, já não baste. Mas há qualquer coisa de paradoxal nisso, quanto mais se grava, menos se vive o instante. A música acontece diante de milhares de pessoas, mas muitas assistem através de um dispositivo que promete guardar o momento enquanto o afasta.
Talvez o nosso tempo esteja precisamente aqui, entre o desejo de registar tudo e a necessidade, cada vez mais evidente, de recuperar espaços onde ainda seja possível simplesmente estar. Ler um livro sem notificações, ver um filme numa sala escura, ouvir uma música sem pensar imediatamente no enquadramento. Pequenos gestos quase antigos que, afinal, começam a parecer estranhamente novos.
A descobrir:
O Teatro São Luiz continua a ser um dos lugares mais consistentes para perceber o que se faz de mais inquieto na música contemporânea. Entre 28 de abril e 3 de maio, o Festival Música Viva traz-nos cruzamentos entre composição experimental, eletrónica, ensemble e criação sonora atual. Este ano o tema “Insurgency” dá-lhe ainda mais força. Uma sugestão fora do circuito habitual. No cinema São Jorge, o Festival de Cinema Italiano devolve-lhe aquela ideia rara de cinema como ritual urbano e cosmopolita. Alguns filmes que não chegam às plataformas vão estar em exibição entre 9 e 19 de abril.
Música para dançar no fim de semana:
Shinjuku (Extended Mix) – Franky Ricardo