Pelo sexto ano consecutivo, arrancámos de Lisboa a caminho de Sevilha, sempre na mesma data e sempre pelo mesmo motivo. Festejar o aniversário de um amigo. E porquê Sevilha? Porque representa para nós um dos últimos bastiões da Europa em termos de autenticidade, de respeito pelos valores e tradições, de festa, genuinidade e alegria. Basta passear pelas ruas da cidade para o sentir. Dos tablaos às esplanadas, da música espontânea às tapas verdadeiras, sem invenções, novas roupagens ou nomes queques e modernos que muitas vezes escondem sabores de gosto duvidoso. Por ali tudo é prático, da apresentação dos pratos ao preço do que escolhemos. É por isso que a juntar a este sentimento do que representa para nós a cultura e a essência de um povo ou sociedade, fazemos questão de que essa mesma jornada seja de gastronomia e dos sabores. Ou seja, valorizamos muito a riqueza histórica e o que nos transmitem as pessoas com quem nos vamos cruzando, os passeios junto à Catedral e ao edifício do Banco de Espanha, com uma arquitetura soberba, mas parte da razão de nos colocarmos à estrada tem um nome e chama-se Bodeguita Romero.
Um pequeno restaurante situado na Calle Harinas, espaço com mais de 70 anos e que vai passando de geração em geração. Meia dúzia de mesas cá fora na esplanada e cerca de 16 lugares ao balcão com mais seis ou sete mesas altas e já está. Não é por isso de admirar, tal é a qualidade reconhecida, que cerca de meia hora antes de abrir se comece a desenhar uma fila à porta. No primeiro dia já não vamos ao engano e somos o segundo grupo a chegar. Esperamos pacientemente até que abra e dirigimo-nos aos nossos lugares de eleição na ponta do lado direito da barra. Somos imediatamente reconhecidos por um dos funcionários que por ali anda há já algumas temporadas. De uma assentada e para acompanhar umas cañas que não param de vir (tal é a sede do aniversariante) vem um Presunto de Pata Negra ou Presunto Ibérico como lhe queiram chamar, uma “Tortilha” de batata, mal cozida (ainda a escorrer), umas “Papas Alinás”, que são, no fundo, batatas novas temperadas em azeite e vinagre e que ali ficam a repousar e a absorver o sabor. Vem também uma “ensaladilla de gambas” do género de uma salada russa, mas com um ótimo camarão e da qual sou particular fã, uns “Chipirones”, pequenas lulas na chapa e uns “Boquerones” fritos, assim como “Salmonetes”.
Para terminar a garrafa de vinho, porque não se deve deixar nada a meio, uma das especialidades da casa, “La autentica Pringá”, um prato tradicional andaluz que consiste em deixar cozinhar lentamente uma mistura de carnes e enchidos até que a mesma fica tão tenra que se desfaz e que vai dentro de um género de mini papo-seco ligeiramente tostado. No primeiro dia ficámo-nos por aqui embora tivéssemos ficado a “namorar” um rabo de boi que um tipo com ar japonês despachou de tal forma que pediu um segundo prato igual.
Como a casa fecha ao sábado a partir das 17h e só volta a abrir na terça, depois do “enfardamento” de sexta, voltámos a repetir a dose no segundo dia ao almoço. O problema é que acordámos um pouco mais tarde e, com o habitual passeio a pé, acabámos por chegar já o restaurante estava cheio, com pessoas a fazer segundas e terceiras filas e, segundo a simpática Maria de Jesus, 12 famílias à nossa frente. Tentámos chegar-nos ao balcão para pelo menos pedirmos umas cervejas enquanto esperávamos, quando o Alejandro (filho do dono Pedro e que atualmente está à frente do espaço) nos faz sinal para esperarmos lá ao fundo.
E, de repente, surge uma mesa, praticamente nas traseiras, montada naquele instante, com 4 bancos altos para que nos possam receber. Sai nova leva dos pratos do dia anterior com a adição da tal “cola de toro” e por ali ficámos a comer e a beber das 14h até fechar. Um serviço irrepreensível, gente muito agradável que nem mesmo no “lodo” deixam de esboçar um sorriso e de serem simpáticos e prestáveis. Quando saímos já está tudo arrumado e a rua limpa de forma impecável. É, alias, uma marca da cidade que Lisboa devia replicar. A limpeza das ruas. Quanto à Bodeguita Romero, enquanto tivermos saúde a romaria continuará porque não há igual…Obrigado ao Alejandro e a toda a equipa. Até para o ano!
A descobrir:
Já que estamos em Sevilha, deixo também uma recomendação para ouvir flamenco ao final da tarde, ou princípio da noite, num dos tablaos mais tradicionais da cidade e que dá pelo nome de Casa Matias. Um dos últimos redutos de uma atmosfera autêntica.
Uma música para dançar no fim de semana:
Lost Original Mix – Vintage Culture, Gabss