quarta-feira, 13 mai. 2026

As referências da “house music” que todos sabem cantar

O regresso de clássicos como "One More Time" ou "Music Sounds Better with you".

Só são precisos dois segundos. Uma batida, uma nota do baixo, um refrão, uma frase reconhecível e a pista inteira muda de atitude. É quase imediato, quem estava distraído aproxima-se, quem conversava sorri e volta-se para a cabine, quem dizia que já ia embora fica mais um pouco, “só mais esta música”. Há qualquer coisa de raro nessa capacidade de unir desconhecidos através de uma memória comum. Talvez por isso certas músicas dispensem apresentação. Não precisam de introdução, de contexto, nem sequer de volume excessivo. É isso que acontece quando num qualquer fim de tarde ou noite, numa discoteca ou festival ecoam temas como “One More Time”, “Music Sounds Better with You”, “Gypsy Woman”, “Show me Love”, “Finally” e tantas outras. Não são apenas clássicos. São músicas que têm uma qualidade cada vez mais rara, pertencem a várias gerações ao mesmo tempo.

Durante anos, a lógica foi diferente. Tocar o mais novo, o mais raro, o mais inesperado. O DJ era quase um curador do futuro. Mas nos últimos tempos a tendência mudou. Os melhores sets já não vivem apenas da descoberta, vivem da capacidade de convocar a memória sem perder contemporaneidade. E não são apenas djs de revival a fazê-lo. Solomun, Charlotte de Witte, Superflu e, mais recentemente, Fred Again… (o britânico que “incendiou” Nova Iorque com seis atuações que tiveram o seu ponto mais alto na recuperação de certas faixas icónicas) são só alguns dos muitos nomes internacionais que já não dispensam um clássico nas suas atuações. Ou seja, hoje, curiosamente, uma parte importante da energia vem do gesto contrário, recuperar o que toda a gente conhece e fazer disso acontecimento outra vez. E estes temas regressam não como peça decorativa de nostalgia, mas como parte central dos sets, quase como se a pista pedisse garantias emocionais para validar o resto. Hoje, muitos artistas perceberam que uma pista precisa de reconhecimento, de referências. Porque no meio de tantas produções novas e técnicas irrepreensíveis, há momentos em que o público procura algo mais simples. Uma canção que todos saibam cantar.

E talvez por isso estas músicas tenham regressado como instrumento de leitura humana. Porque há faixas que não servem apenas para manter o ritmo, servem para reorganizar a energia da sala. De repente o grupo apaixonado por house, o que veio pelo pop, o que adora techno, o que quase não dança e até quem normalmente fica à margem, encontra ali uma linguagem comum. É esse o poder raro destes refrães. Agradam a quem conhece a história da house music e a quem apenas reconhece uma sensação antiga de felicidade. Não exigem fidelidade a um género, não pedem identidade musical. Porque quase todos guardam alguma imagem ligada a estas músicas. Uma viagem, aquele verão inesquecível, um carro com as janelas abertas, uma festa antiga, uma noite que parecia durar para sempre. E quando regressam, trazem consigo mais do que som, trazem o tal contexto emocional.

No fundo, uma pista gosta disto porque gosta de se rever. Numa época em que tanta música nasce para durar semanas, talvez o verdadeiro sucesso esteja precisamente em perceber que certas batidas sobreviveram porque continuam a saber fazer aquilo que muitos novas procuram. Pôr pessoas diferentes a dançar, como se por instantes, tivessem vindo todas da mesma história. Num mundo cada vez mais heterogéneo, divisível e segmentado é bom ainda existirem espaços e momentos onde todos se sentem inseridos. Se no passado a house music revolucionou a dance scene, provavelmente o papel que lhe reserva o futuro é o de reunificar devolvendo aos que gostam de se divertir o verdadeiro espírito de uma festa. Intemporal porque resiste à erosão do tempo, intemporal porque é tão bom que (quase) ninguém o pode negar.

A descobrir:

O Lisb-On é para mim uma das experiências urbanas mais cativantes de Lisboa. Começou no Parque Eduardo VII, mudou-se há alguns anos para o Jardim Keil do Amaral, em Monsanto, mas a qualidade mantém-se quer a nível musical como no serviço ou no ambiente. Sempre bem frequentado e num espaço repleto de verde, este ano realiza-se a 3 e 4 de julho e contará com nomes de peso como Folamour, Kerri Chandler, Camelphat, Adam Ten ou Sven Vath. Nos percursos pelo meio da natureza que nos levam aos diversos momentos, certamente encontrará o seu. 

Uma musica para dançar no fim de semana:

One More Time – Daft Punk