Durante décadas ninguém questionou o futebol. O jogo começava e o mundo parava, ou pelo menos parecia. Era como se de um ritual se tratasse, quase sagrado, naquele alinhamento entre o apito inicial e a nossa disponibilidade emocional. Hoje, não. Hoje o jogo começa… e alguém muda de aplicação ou de canal ao fim de sete minutos. Não é falta de qualidade. Nunca houve tantos talentos, tanta ciência, tanto detalhe. Mas há uma espécie de cansaço invisível. Jogos demasiado longos para quem vive em modo scroll. Pausas que quebram mais do que constroem. Estratégias que, sendo brilhantes, se tornam previsíveis para quem procura estímulo constante.
O futebol, sem dar por isso, ficou sério demais para um mundo que já não tem paciência para a solenidade. E depois aparecem coisas como a Kings League, meio espetáculo, meio videojogo, e percebemos que o problema não é o interesse, é o formato. Jogos mais curtos, imprevisibilidade assumida, interação constante. Não é melhor nem pior. É diferente. E, sobretudo, é mais próximo da linguagem de quem cresceu a clicar, a reagir e a participar. O mais desconfortável no meio disto tudo é que os miúdos não estão “errados”. Estão apenas noutro ritmo. Para eles, um 0-0 ao intervalo não é tensão, é aborrecimento. Um VAR de três minutos não é rigor, é interrupção. E um jogo que promete emoção e entrega gestão… perde-os.
Podemos chamar-lhes impacientes. Mas talvez sejamos nós que nos habituámos a um tempo que já não existe. O futebol sempre foi mais do que o jogo. Era a conversa antes, a discussão no café, o nervoso miudinho, o golo que ficava para sempre. Era o contexto. O problema é que esse contexto está a desaparecer, substituído por conteúdos infinitos, todos a competir pela mesma atenção.
E quando tudo compete, ganha o mais rápido. Não necessariamente o melhor. Isto não é um manifesto contra o futebol moderno. É um aviso do que vou vendo nos mais jovens, mas também em gente da minha idade que vê os jogos no estádio ao meu lado e que passa parte do tempo agarrada ao telemóvel. A indústria pode continuar a crescer, a faturar, a expandir-se para novos mercados. Mas se perde uma geração, perde o futuro, e isso não se resolve com direitos televisivos.
Ao contrário do que alguns iluminados dizem por aí, o desporto rei não se pode afastar dos adeptos para se tornar excessivamente mercantilista. O que o trouxe até aqui foi precisamente o facto de ser do povo, de estar ao alcance de todos, de juntar gerações e gente de todos os estratos sociais. Com os tempos perdidos pelos jogadores com a condescendência dos árbitro, os resultados empatados em que ninguém vai satisfeito para casa ou a falta do cálice chamado golo, as substituições que não permitem trocas constantes como no futsal ou as suspensões que tiram alguns dos melhores nas finais que todos querem ver, a tempestade vai-se tornando perfeita para entrar na decadência.
A questão não é se o futebol deve mudar. É quanto tempo ainda tem para perceber que já começou a ficar para trás. E há sinais que não fazem barulho. Como as bancadas que ainda estão cheias… mas cada vez mais distraídas e silenciosas. É preciso atenção a novos fenómenos que vão despontando cada vez com maior sucesso.
A descobrir:
Os mercados lisboetas têm vindo a sofrer uma transformação, adaptando-se a um tempo mais concorrencial e dinâmico. Depois de Campo de Ourique e da Ribeira chegou a vez do Mercado do Lumiar. Da tradição mantêm-se algumas barracas que lhe dão continuidade, mas aparece agora de cara lavada apostando sobretudo na restauração e na diversidade, preparado para ativações, eventos, transmissão de jogos de futebol e celebrações. A maior freguesia de Lisboa promete «devolver a este espaço uma nova centralidade, viva, atrativa e com ligação real à freguesia». Reabre já dia 9 de maio para quem quer estudar ou divertir-se, vibrar ou simplesmente assistir a um pequeno espetáculo ou exposição.
Música para dançar no fim de semana:
Free your mind (Extended mix) – Cloonee, Prospa