quarta-feira, 09 set. 2026

A pista de dança virou plateia

A noite era, até há bem pouco tempo, o último território sem registo. O sítio onde se podia dançar mal, cantar pior, dizer disparates às quatro da manhã e sair dali com a certeza tranquila de que nada daquilo ficaria.

Chegou-me esta semana um vídeo filmado numa noite deste verão, num daqueles espaços onde toda a gente quer estar. No palco, um dos maiores nomes da música latina. Em baixo, milhares de pessoas com os braços no ar. Só que os braços não estavam no ar a dançar, estavam no ar a segurar telemóveis. Uma pista inteira transformada num mar de ecrãs acesos, todos apontados ao mesmo sítio, todos a gravar exatamente o mesmo vídeo que ninguém vai voltar a ver. Olhei durante algum tempo para aquela imagem e o que me ficou não foi a festa. Foi a estranha imobilidade de uma multidão que estava toda a assistir e nenhuma a participar.

A noite era, até há bem pouco tempo, o último território sem registo. O sítio onde se podia dançar mal, cantar pior, dizer disparates às quatro da manhã e sair dali com a certeza tranquila de que nada daquilo ficaria. Não havia prova, e era precisamente por isso que havia liberdade. Hoje entra-se numa discoteca a saber que se está potencialmente em direto. Quando toda a gente filma, ninguém está descontraído. Quando ninguém está descontraído, a pista deixa de ser pista e passa a ser plateia. E quando a pista passa a plateia, aquilo a que chamávamos noite acabou, ainda que a música continue a tocar até de manhã.

Trabalho há muitos anos com comunicação e sei bem que parte da culpa é nossa, de quem faz este negócio. Desenhámos espaços para serem fotografados antes de serem vividos, escolhemos a parede de flores antes do sistema de som, iluminámos a zona onde se tiram fotografias melhor do que a zona onde se dança para ser “instagramável”, medimos o sucesso de uma noite pelo alcance das publicações e não pela cara das pessoas à saída. Os próprios artistas alimentam isto, param a música para pedir os telemóveis no ar, porque sabem que a melhor promoção do concerto é o público a fazê-la de graça. Criámos uma noite que funciona muito bem no ecrã e cada vez pior no chão. E depois queixamo-nos de que já não há ambiente. Perdeu-se a magia do desconhecido, dos piropos e das “figuras” que fazíamos com um copo a mais, sem maldade e com muita diversão.

Não quero ser injusto nem passar por velho do Restelo. Guardar uma memória é humano e sempre o fizemos, com máquinas descartáveis, com cabines de fotografias, com aquelas fotos reveladas uma semana depois que ninguém chegava a tirar do envelope. A diferença é de escala e de intenção. Antes registava-se um momento para o recordar, agora vive-se o momento inteiro para o registar, e não é a mesma coisa. Ninguém filma uma noite para a rever, filma-a para a mostrar, e entre uma coisa e outra vai a distância que separa a memória da vaidade. Não se guarda melhor uma noite por a filmar, nem se pertence mais a um sítio por provar que lá se esteve.

A magia da noite também está na música e nas luzes, mas sempre esteve sobretudo no facto de não haver testemunhas. Enquanto continuarmos a exigir prova de que nos divertimos, vamos ter cada vez melhores vídeos e cada vez menos noites de que valha a pena falar. Talvez por isso hoje em dia quando saímos, regressamos sempre a casa com aquela sensação de que não nos preencheu, que foi tempo mal gasto ou que nos faltou qualquer coisa.

A descobrir:

Numa altura em que muitos ainda estão pelo Algarve recomendo “O Cesteiro” em Vilamoura. Um restaurante discreto com um preço equilibrado. Escolhe-se o peixe ao balcão, à entrada, e isso faz a diferença naturalmente. Robalo grelhado, camarão ao alho ou um óptimo pregado com um serviço atento, sem pressa e sem espetáculo. Se puder fique na esplanada com vista para a Marina.

Música para dançar no fim de semana:

Imperfect Interbeing - Napsea