A tecnologia não é o futuro, é o presente. Inteligência artificial, realidade aumentada, conteúdos generativos, tudo isto já está a moldar a criação. Mas rapidamente se percebe também que a tecnologia, por si só, não chega. O que faz a diferença continua a ser intenção, a emoção e as sensações que felizmente continuam a não poder ser totalmente formatadas. Isso leva-nos a uma nova estética, a um “produto” para o qual se olha paradoxalmente com outro olhar. Num tempo dominado pelos algoritmos, o erro humano ganha um valor inesperado. O cru, o inacabado e o espontâneo tornam-se mais autênticos do que o polido. É quase uma resposta emocional a um mundo demasiado perfeito para ser verdadeiro. Vemos isso todos os dias, cada vez mais presente em tudo o que nos é colocado à frente. São as redes sociais e os influencers, as imagens feitas em IA ou as respostas aos emails. Até comportamentos, reações e o entendimento dos nossos sonhos são pesquisados no ChatGPT, onde se vão criando especialistas e “tudólogos”. Tudo parece refinado, meticulosamente desenhado. As viagens de sonho, as férias perfeitas, as vidas sem falhas.
No entanto há uma estranha ironia no nosso tempo. Nunca tivemos tantas ferramentas para aperfeiçoar tudo, a imagem, o som, a palavra, e nunca foi tão valorizado aquilo que escapa ao controlo. A nova estética do imperfeito não é uma moda passageira, é uma reação. Quase um cansaço coletivo. Nos últimos anos, habituámo-nos a consumir versões editadas da realidade. Fotografias sem falhas, discursos sem hesitação, experiências coreografadas ao milímetro. Mas algures nesse processo perdeu-se qualquer coisa de essencial, a sensação de verdade. E é precisamente essa lacuna que o “cru” vem preencher.
Hoje, o que é inacabado tem um magnetismo particular. Uma atuação de um dj que deixa escapar um pequeno desacerto que se vai corrigindo, uma música onde se ouve a respiração do artista, um espaço que não esconde as suas imperfeições arquitetónicas. Tudo isso comunica uma coisa rara, humanidade. O humano tornou-se o novo luxo e a maior sofisticação. Talvez essa seja a razão para que a palavra “organic”, ou orgânico em português, seja cada vez mais pesquisada no Google. Não se trata de glorificar o erro pelo erro. Há uma diferença subtil mas decisiva entre o desleixo e a imperfeição com intenção. O que está a emergir é uma estética consciente, onde o inacabado não é falha, mas linguagem. É o gesto de deixar espaço para interpretação, para a falha, para a surpresa.
Na arte, isto traduz-se numa rejeição crescente do excesso de produção e numa valorização do processo. O “making of” ganha quase tanta importância como a obra final. Nos concertos, nos espetáculos, nas exposições, há uma vontade de aproximar o público da criação, de mostrar o que normalmente fica nos bastidores. Como se disséssemos: isto não é perfeito mas é real.
Na cultura digital, o fenómeno é ainda mais evidente. Conteúdos menos editados, mais espontâneos, muitas vezes captados num único take, começam a gerar maior ligação do que produções altamente trabalhadas. Porque, no fundo, o público identifica-se mais no que é falível do que no que é intocável.
No meio de tanta filtragem, há uma vontade crescente de voltar ao que não cabe num filtro. Ao que não pode ser totalmente corrigido, ajustado, melhorado. Ao que, por ser imperfeito, nos lembra que ainda estamos vivos. E isso, mais do que qualquer acabamento perfeito, continua a ser insubstituível. A autenticidade.
A descobrir:
Estreou recentemente o documentário Neverland, da portuguesa Cata Vassalo, que mostra os bastidores de uma passerelle de moda, mostrando por dentro a construção do universo “Utopia”, imaginário que lhe deu forma e conteúdo. Em quatro episódios (“Prelúdio”, “Alma”, “Português” e “Bónus”), esta minissérie acompanha o desenvolvimento de uma coleção de joias e o crescimento da marca, da criatividade à escolha que resultam num desfile registado em tempo real. Uma boa forma de entendermos o sucesso de um nome que promete vir a marcar o cenário artístico do nosso país.
Musica para dançar no fim de semana:
I’ll pick Wildflowers – Napsea