Há momentos na História que dividem o tempo em duas partes: o antes e o depois. A invenção da imprensa, a revolução industrial, a chegada da eletricidade ou da internet são exemplos de mudanças que transformaram para sempre a vida das pessoas. Tenho a convicção de que as próximas gerações olharão para os anos que estamos a viver da mesma forma. Estamos a assistir ao nascimento de uma nova era marcada pela Inteligência Artificial, uma tecnologia que promete alterar profundamente a sociedade, a economia e até a forma como pensamos. Pela primeira vez, uma inovação não substitui apenas a força física do ser humano. Começa também a desempenhar tarefas intelectuais que sempre considerámos exclusivamente nossas. Escreve textos, cria imagens, traduz idiomas, analisa informação e ajuda a tomar decisões em poucos segundos. É a música que ouvimos que já não é produzida por uma banda, as viagens que são desenhadas sem recurso a um agente e tantos outros passos que damos no dia a dia que começam a ser substituídos.
As vantagens são evidentes. Na saúde, poderá ajudar a diagnosticar doenças mais cedo. Na educação, permitirá um ensino mais personalizado. Nas empresas, aumentará a produtividade. Para milhões de pessoas, significará mais acesso ao conhecimento e a serviços que antes estavam fora do seu alcance. Acima de tudo é o tempo que nos poupa para eventualmente podermos fazer outras coisas. Uma apresentação de um departamento que antigamente levava dias de estudo para fazer, agora está à distância de um clique e das frases certas que ensinem a máquina a desenvolver o conteúdo.
Mas todas as revoluções trazem oportunidades e receios.
Muitos empregos serão transformados. Alguns desaparecerão, enquanto outros surgirão. A adaptação será inevitável e exigirá capacidade de aprendizagem constante. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a desinformação. Hoje já é possível criar imagens, vídeos e declarações falsas com um nível de realismo que desafia a própria noção de verdade. Existe também o risco da dependência. Quanto mais confiamos nas máquinas para pensar, escrever ou decidir, menos exercitamos capacidades fundamentais como o pensamento crítico, a criatividade e a reflexão.
Talvez o maior desafio não seja tecnológico, mas ético. A questão não é aquilo que a Inteligência Artificial consegue fazer. A verdadeira questão é saber como a sociedade decidirá utilizá-la. Como acontece com qualquer ferramenta poderosa, tudo dependerá dos princípios, das regras e dos limites que formos capazes de estabelecer.
Há quem olhe para esta revolução com entusiasmo e quem a encare com medo. A realidade estará provavelmente entre os dois extremos. A Inteligência Artificial não será o fim da humanidade nem a solução para todos os problemas. Será mais uma etapa da nossa evolução. O futuro não será uma luta entre homens e máquinas. Será uma parceria inevitável entre ambos. Os países que compreenderem isso mais cedo estarão melhor preparados para prosperar. Os que ignorarem a mudança arriscam-se a ficar para trás. Daqui a cem anos, quando os historiadores escreverem sobre o início do século XXI, é provável que encontrem guerras, crises e conflitos. Mas dificilmente ignorarão esta transformação silenciosa que começou nos computadores e entrou rapidamente em todos os aspetos da nossa vida. Somos a geração que viu o futuro chegar. E temos a responsabilidade de garantir que o progresso tecnológico continua ao serviço das pessoas e não o contrário.
Porque, no final, a maior inteligência continuará a ser a sabedoria humana para decidir o caminho a seguir. E também essa será cada vez mais valorizada.
A descobrir:
Se existe espaço em Lisboa onde dá gosto passear e circular mas que nos oferece paralelamente programações cuidadas e bem diversas, ele dá pelo nome de Fundação Calouste Gulbenkian. O Jardim de Verão, nesta época do ano é dos meus sítios preferidos, bem no centro da cidade e uma autentica lufada de ar fresco, com música que não fere os ouvidos e um ambiente com reduzida poluição visual. Os concertos que se desenrolam no Jardim têm ainda uma particularidade a favor. São gratuitos. Com início dia 27 de junho e durante 3 semanas, terá muito por onde escolher, dos concertos às oficinas, das conversas à exibição de filmes.
Música para dançar no fim de semana:
Step by step in Time – Benny Rivers (IA)