Ao longo das últimas décadas, uma constelação heterogénea de influenciadores e especialistas de ocasião, tem insistido, quase em cadência ritual, na depreciação do Serviço Nacional de Saúde. Dir-se-ia confirmar-se, também aqui, o traço melancólico do espírito português que Eça de Queirós, com a sua ironia mordaz, tão bem identificou: essa propensão para o desencanto e para o lamento, tantas vezes mais fértil do que o reconhecimento do mérito. Mas a questão que verdadeiramente se impõe ultrapassa o plano do pessimismo cultural. Importa perguntar: que estratégia de comunicação produziria melhor efeito do que esta persistente erosão discursiva do setor público, favorecendo, por contraste, o prestígio de interesses concorrenciais? As críticas são legítimas - e indispensáveis, num sistema que deve viver sob escrutínio -, mas não raras vezes são instrumentalizadas por agendas ideológicas, transformando-se em armas de arremesso no tabuleiro político-partidário. E, no entanto, o Serviço Nacional de Saúde permanece. Mais do que isso: resiste, adapta-se e renova-se. A sua resiliência não é abstrata; vive no esforço quotidiano dos seus profissionais, que, apesar das dificuldades, continuam a transformar, atualizar e fazer evoluir o sistema. Permita-se-me um apontamento pessoal. Participei, no XII Governo Constitucional, sob a liderança do ministro Arlindo Carvalho, na construção do Estatuto do SNS de 1993 - uma matriz estruturante que perdurou durante quase três décadas. Esse diploma revelou uma notável capacidade de adaptação, servindo diferentes orientações políticas e permitindo ao SNS alcançar, em diversos momentos, níveis de desempenho reconhecidos internacionalmente pela sua qualidade clínica e pelos seus resultados. Recorde-se, agora, o ciclo de reformas levado a cabo durante no último período da chamada ‘geringonça’, sob a responsabilidade de Marta Temido. Procurando imprimir uma nova orientação ao sistema, esse processo acabou por introduzir alterações de natureza mais estrutural, que alguns entendem ter representado uma inflexão face ao quadro de estabilidade proporcionado pela Lei de Bases anterior, que fora concebida numa lógica de atualização evolutiva, mas de continuidade (sem rotura). Num contexto já de si exigente, essas opções enfrentaram dificuldades significativas, deixando um legado cuja avaliação permanece necessariamente aberta e sujeita a leituras diversas. Hoje, porém, o imperativo é claro: salvar e fortalecer o SNS. Esse deve ser o compromisso de qualquer governo responsável. E importa reconhecer que pelo atual governo têm sido dados passos concretos no sentido da estabilização do sistema, do reforço dos seus profissionais, da reorganização dos cuidados e da recuperação da capacidade de resposta. O SNS não é um corpo inerte à deriva. É um organismo vivo, complexo, em permanente adaptação. Reformá-lo com responsabilidade e preservá-lo com visão não são caminhos opostos - são exigências complementares. Criticar é necessário. Descredibilizar sistematicamente é outra coisa - e raramente serve o interesse público. Num tempo em que a dúvida se propaga com facilidade e a confiança se desgasta rapidamente, importa reafirmar o essencial: o Serviço Nacional de Saúde continua a ser uma das maiores conquistas da democracia portuguesa. Não um legado do passado, mas um compromisso com o futuro. E é precisamente por isso que vale a pena defendê-lo - não com complacência, mas com exigência; não com resignação, mas com ambição. Porque um SNS melhor não é apenas possível: é indispensável. E continua, todos os dias, a ser construído pelas políticas públicas, pelos seus profissionais e pelos portugueses.
Médico