Portugal é hoje um dos países mais envelhecidos da Europa e do mundo. Mais de 2,4 milhões de pessoas têm 65 ou mais anos, o que representa cerca de um quarto da população. Dentro deste grupo, mais de 1,8 milhões já ultrapassaram os 70 anos, refletindo um envelhecimento que não é apenas crescente, mas também progressivamente mais avançado.
Mas o verdadeiro desafio não reside apenas na dimensão desta população — reside na sua condição, cerca de 90 a 100 mil idosos vivem em estruturas residenciais, um número relativamente reduzido em termos proporcionais, mas que concentra os casos de maior dependência. A esmagadora maioria permanece na comunidade, muitas vezes sem suporte adequado.
Estima-se que apenas cerca de 40% dos idosos mantenham autonomia funcional significativa, o que implica que a maioria vive com algum grau de limitação nas atividades da vida diária, a que se soma a diminuição da capacidade de decisão. Mas envelhecer não é uma experiência homogénea. Há uma diferença estrutural entre envelhecer em casa, integrado na comunidade, ou viver os últimos anos em contexto de institucionalização.
Para a maioria, permanecer em casa representa continuidade: manutenção de rotinas, preservação de referências, proximidade a redes afetivas e maior perceção de controlo sobre a própria vida. Contudo, esta permanência está longe de ser isenta de riscos. Muitos idosos vivem sós, com redes de apoio frágeis ou sobrecarregadas, o que pode traduzir-se em isolamento, negligência involuntária e ausência de resposta atempada a situações de dependência crescente.
Por outro lado, a institucionalização surge, na maioria das situações, como resposta a níveis elevados de dependência. As estruturas residenciais garantem cuidados contínuos, vigilância e resposta técnica a necessidades complexas, particularmente em situações de demência, incapacidade física severa ou ausência de suporte familiar.
Mas essa resposta tem um custo que raramente é quantificado em indicadores: a perda de controlo sobre o quotidiano, a padronização de rotinas, a redução da esfera de decisão individual e, frequentemente, a diluição da identidade pessoal num ambiente coletivo.
Durante décadas, o referencial dominante foi o chamado envelhecimento bem-sucedido. Este conceito trouxe um contributo importante ao deslocar o foco da velhice como declínio inevitável para a possibilidade de manter saúde, funcionalidade e envolvimento ativo ao longo do tempo.
Ao assentar em critérios exigentes — baixa doença, elevado desempenho físico e cognitivo, forte participação social — este modelo acaba por definir um padrão que muitos não conseguem atingir. Ou seja, mais do que um modelo universal, o envelhecimento bem-sucedido tende a funcionar como um referencial seletivo.
É neste ponto que emerge a necessidade de uma mudança conceptual para a longevidade positiva que parte de um pressuposto diferente. Não ignora a doença nem a dependência; incorpora-as. Não define um ideal restritivo, mas propõe uma abordagem inclusiva, centrada na maximização da autonomia possível em cada circunstância. O foco deixa de estar em “cumprir critérios” e passa a estar em preservar aquilo que é essencial: a capacidade de decisão, o sentido de identidade, o propósito e a ligação aos outros.
Enquanto o envelhecimento bem sucedido privilegia o desempenho, a longevidade positiva valoriza a adaptação. Enquanto um enfatiza a independência, o outro reconhece a interdependência como parte constitutiva da vida. Enquanto um tende a excluir quem adoece, o outro integra todas as trajetórias possíveis de envelhecimento.
Esta diferença não é apenas semântica — é estrutural. Define formas distintas de organizar cuidados, de pensar políticas públicas e, sobretudo, de olhar para quem envelhece.
Se há algo que os dados e a realidade social nos mostram com clareza é que viver mais não significa, por si só, viver melhor. Entre o prolongamento da vida e a qualidade com que essa vida é experienciada abre-se um intervalo crítico.
É precisamente aqui que a longevidade positiva se afirma como mudança de paradigma. Não se trata apenas de acrescentar anos à vida, mas de acrescentar vida aos anos — com propósito, participação, dignidade e continuidade identitária. Trata-se de recentrar o envelhecimento na pessoa, nas suas capacidades remanescentes e no seu valor social, e não apenas nas suas limitações.
Sem esta mudança, o horizonte é claro: uma longevidade prolongada, mas esvaziada de significado, onde a sociedade se limita a gerir o tempo até ao fim. Com ela, abre-se a possibilidade de um novo contrato social, onde envelhecer deixa de ser sinónimo de retirada e passa a ser uma
fase plena de contributo, ligação e realização. Porque, em última análise, sem longevidade positiva, resta apenas esperar o fim.
Diretor da Escola Superior de saúde Ribeiro Sanches - ERISA