A operação militar lançada pelos Estados Unidos sob a liderança de Donald Trump, que culminou com a captura de Nicolás Maduro em Caracas no início de janeiro de 2026, representa um dos eventos geopolíticos mais marcantes em décadas nas Américas. Este episódio, que os Estados Unidos descreveram como uma missão cirúrgica de alta precisão, não foi apenas a derrubada de um líder controverso: foi um choque direto na estrutura de poder que vinha moldando a Venezuela e a sua influência regional.
Caracas como epicentro de interesses de Moscovo e Pequim
Durante anos, a Venezuela serviu não só como um centro de poder no Caribe e na América do Sul, mas também como uma ponte estratégica para potências globais como a Rússia e a China. Moscovo e Pequim investiram pesadamente (económica, política e diplomaticamente) em Caracas, transformando o país num balão de ensaio das rivalidades entre grandes potências fora da órbita ocidental tradicional. Estas relações incluíam acordos energéticos, investimentos e apoios políticos que contrariavam abertamente a influência norte-americana na região.
Ao intervir militarmente e capturar Maduro, os Estados Unidos não apenas cortaram a figura central de um regime aliado de Moscovo e Pequim, mas também enfraqueceram simbolicamente a capacidade dessas potências de projetarem influência numa esfera que tradicionalmente os EUA consideravam seu “quintal”. A dimensão estratégica da Venezuela, sobretudo por causa das suas vastas reservas petrolíferas, fez com que Caracas fosse mais do que um aliado conveniente: tornou-se um ponto de atrito geopolítico entre blocos globalmente antagonistas.
A captura de Maduro: fim de um regime ou início de uma nova ordem?
A captura de Nicolás Maduro não deve ser vista como um simples fim de ciclo. Embora marque certamente a queda formal de um dos governos mais longevos e contestados da América Latina, este momento abre a porta para algo mais profundo: a redefinição da ordem política no continente americano.
Até aqui, a hegemonia norte-americana tinha sido, na prática, desafiada por governos considerados antiocidentais que encontraram na Venezuela um bastião, uma base de influência e uma voz de contestação. Agora, com a queda de Maduro e com os Estados Unidos a declarar que pretendem “governar” ou influenciar a transição política e económica no país, assiste-se a uma reconfiguração radical das relações de poder no hemisfério.
Esta transição pode significar várias coisas:
• primeiro, uma nova dinâmica geopolítica. (Se Moscovo e Pequim perdem a sua âncora regional, as capacidades de contestação à influência americana no continente enfraquecem);
• Depois, o reforço do papel dos EUA. (A ação de Washington pode ser interpretada como um regresso explícito à política de poder direto na sua vizinhança, invertendo décadas de retórica diplomática mais contida);
• Por fim, os desafios legais e normativos. (A maneira como esta intervenção foi conduzida, sem consenso internacional e com acusações de violação de soberania, levanta questões sobre o papel do direito internacional e da ordem global estabelecida).
O episódio da captura de Maduro não é apenas um ponto final na história de um regime, é potencialmente um ponto de partida para uma nova ordem nas Américas. A tradição de autonomia regional, as influências externas em conflitos internos e o equilíbrio de poder entre grandes potências foram abalados. A verdadeira medida do impacto deste evento será sentida nas relações diplomáticas, económicas e estratégicas nas próximos anos, não só na América Latina, mas no palco mundial.
Docente militar e investigador HTC