Há cerca de cinquenta anos, o Irão era visto por muitos como um país em ascensão, um símbolo de modernidade no Médio Oriente. Era apelidado de “Pérola do Médio Oriente” e não por acaso: investimento, educação, diversidade cultural e uma sociedade em rápida transformação faziam acreditar que o futuro seria inevitavelmente melhor. Hoje, esse mesmo país é frequentemente associado à repressão, ao medo e à perda de liberdades fundamentais. O que aconteceu pelo caminho?
Durante as décadas de 1960 e 1970, sob o reinado de Mohammad Reza Pahlavi, o último Xá do Irão, o país viveu um período de reformas profundas conhecido como “Revolução Branca”. Tratou-se de um projeto ambicioso que procurava modernizar a economia, redistribuir terras, expandir a educação e integrar as mulheres de forma mais ativa na vida pública. Em 1963, as mulheres iranianas conquistaram o direito de voto, um marco histórico numa região marcada por fortes tradições conservadoras.
Nessa altura, o Irão urbano era um espaço de contrastes férteis. As universidades enchiam-se de jovens motivados, o debate intelectual florescia em cafés e livrarias, e a cultura dialogava com o mundo. O cinema iraniano dava os seus primeiros passos para o reconhecimento internacional e cidades como Isfahan ou locais históricos como Persépolis tornavam-se símbolos de um país que sabia honrar o passado sem abdicar do futuro.
Nada disto significava perfeição. Existiam desigualdades sociais evidentes e uma repressão política que não pode ser ignorada. Ainda assim, muitos iranianos acreditavam que o progresso era irreversível e que as tensões internas poderiam ser superadas numa lógica gradual de abertura.
A Revolução Islâmica de 1979 interrompeu brutalmente esse percurso. Liderado pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini, o movimento derrubou a monarquia prometendo justiça social, dignidade nacional e o fim da corrupção. Para muitos, tratou-se de uma esperança legítima de mudança. No entanto, a realidade que se seguiu revelou-se profundamente diferente do ideal prometido.
Com a instauração de um regime teocrático, o poder político passou a estar subordinado à autoridade religiosa. As leis foram reinterpretadas segundo uma visão rígida do Islão e muitas das liberdades conquistadas nas décadas anteriores foram progressivamente eliminadas. O uso obrigatório do véu tornou-se um símbolo visível dessa transformação, mas esteve longe de ser o único.
A vida cultural foi controlada, o ensino reorganizado segundo princípios religiosos e a liberdade de expressão severamente limitada. Ao mesmo tempo, a economia entrou num ciclo de dificuldades prolongadas, agravadas por sanções internacionais e problemas estruturais internos. Inflação, desemprego e perda de poder de compra passaram a fazer parte do quotidiano de milhões de iranianos.
Nas últimas décadas, estes problemas tornaram-se ainda mais visíveis. O caso de Mahsa Amini, em 2022, que morreu sob custódia policial após alegadas infrações às regras do véu, expôs de forma dramática a tensão entre o Estado e a sociedade. Os protestos que se seguiram mostraram um país jovem, cansado e disposta a arriscar para exigir direitos básicos.
Hoje, muitos jovens iranianos vivem divididos entre o amor à sua cultura e a frustração perante a ausência de perspetivas. A emigração de profissionais qualificados é uma consequência direta desse desencanto, com impactos profundos no futuro do país. Ao mesmo tempo, as tensões políticas internas e externas continuam a condicionar o dia a dia da população.
Apesar de tudo, seria um erro reduzir o Irão apenas à sua dimensão política. A cultura iraniana permanece viva e resistente. A literatura, a música, o cinema e as tradições continuam a ser formas de afirmação identitária e de esperança silenciosa. O país mantém uma riqueza histórica e natural extraordinária, que reflete a complexidade e a profundidade do seu povo.
A história recente do Irão é um lembrete poderoso de como mudanças políticas profundas podem transformar radicalmente uma sociedade em pouco tempo. Mostra também que progresso não é linear e que a relação entre tradição, religião, poder e liberdade é muitas vezes mais complexa do que parece.
Acima de tudo, o Irão continua a ser habitado por pessoas que sonham. Sonham com mais justiça, mais oportunidades e uma liberdade que lhes permita escolher o seu próprio caminho. Enquanto esse desejo persistir, a história do Irão permanece em aberto.
Docente UP-IUM
Investigador HTC – NOVAfcsh