sexta-feira, 08 mai. 2026

Dois rivais no Médio Oriente

Do isolamento iraniano à modernização saudita

Quase meio século após a Revolução Islâmica de 1979, o Irão continua amarrado a uma teocracia rígida, cada vez mais isolada e repressiva. Em sentido oposto, a Arábia Saudita, sob a liderança do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, procura, não sem contradições, conciliar tradição com reformas económicas e sociais no âmbito da Visão 2030. O contraste entre estes dois rivais regionais dificilmente poderia ser mais evidente.

No Irão, o Líder Supremo Ali Khamenei, ou quem o venha a suceder, mantém um controlo quase absoluto sobre os principais pilares do Estado: as Forças Armadas, o sistema judicial e os meios de comunicação social. A sociedade iraniana, com cerca de 90 milhões de habitantes, maioritariamente jovens e qualificados, vive sob uma pressão permanente. As manifestações de 2022, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini sob custódia da chamada polícia da moralidade, deram origem ao movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, que voltou a ganhar força em sucessivas ondas de protesto em 2025 e 2026.

A resposta do regime tem sido implacável: repressão violenta, milhares de detenções, execuções e um endurecimento das leis que impõem o uso obrigatório do hijab. As mulheres continuam a ser alvo de um controlo sistemático sobre os seus corpos e escolhas individuais, num contexto em que a dissidência política é frequentemente tratada como traição ao Estado ou à religião.

No plano económico, o cenário é igualmente sombrio. As sanções internacionais prolongadas, a má governação e o impacto de conflitos regionais recentes provocaram uma inflação galopante, a forte desvalorização do rial e uma escassez generalizada de bens essenciais. O produto interno bruto do Irão situa-se entre os 420 e os 450 mil milhões de dólares, um valor manifestamente aquém do potencial de um país rico em recursos energéticos e capital humano.

O programa nuclear iraniano, reiteradamente apresentado pelas autoridades como pacífico, tem alimentado tensões internacionais, conduzido a ataques contra infraestruturas estratégicas e agravado o isolamento do país. Paralelamente, a estratégia do chamado “eixo da resistência”, através do apoio a proxies como o Hezbollah, os Houthis ou milícias no Iraque e na Síria, permitiu alguma projeção de poder regional, mas à custa de instabilidade e de recursos que fazem falta dentro de portas.

Em contraste, a Arábia Saudita tem seguido um caminho marcadamente pragmático. Com um PIB superior a 1,2 biliões de dólares e um sector não petrolífero em expansão, Riade aposta na diversificação económica como condição de sobrevivência futura. A participação feminina no mercado de trabalho aumentou de forma significativa, ultrapassando 34 a 35% nos últimos anos, acompanhada de avanços concretos nos direitos de conduzir, viajar e empreender.

A reabertura de cinemas, a organização de concertos internacionais e projetos megalómanos como o NEOM tornaram-se símbolos de uma abertura cuidadosamente controlada ao mundo exterior. Persistem, naturalmente, críticas consistentes quanto às violações dos direitos humanos e ao carácter autoritário do regime saudita. Ainda assim, o país conseguiu atrair investimento estrangeiro e projectar uma imagem de modernização gradual, mesmo quando as reformas são limitadas e claramente orientadas por imperativos económicos.

O Irão oferece aos seus cidadãos uma narrativa de orgulho ideológico e de “resistência”, mas traduz essa retórica em pobreza, isolamento e medo. A Arábia Saudita, apesar das suas próprias contradições e dos riscos associados a conflitos regionais, incluindo o impacto nas exportações energéticas e na execução da Visão 2030, aposta numa adaptação pragmática que, pelo menos do ponto de vista económico, parece mais sustentável.

O futuro do Irão permanece profundamente incerto. Uma população cansada interroga-se sobre quanto tempo mais suportará uma teocracia que promete glória revolucionária, mas entrega estagnação económica e repressão política. Enquanto a comunidade internacional observa com crescente apreensão os riscos nucleares e a instabilidade regional, o contraste com o vizinho saudita é elucidativo: a rigidez ideológica cobra um preço elevado e o Irão continua a pagá-lo, enquanto Riade tenta, com maior ou menor sucesso, ajustar-se às exigências do século XXI.