No já longínquo ano de 2003 a Editorial Presença publicou 3 volumes subordinados ao tema da Lei de Murphy, da autoria de Arthur Bloch. Li-os todos, sempre com a ideia de poder vir a utilizar algumas das citações que deles constam para ilustrar casos concretos do quotidiano nacional. Chegou agora essa ocasião.
Em primeiro lugar, devo dizer que tive o cuidado de contactar a editora explicando o que queria fazer, sem que, pelo menos até agora, duas semanas decorridas, tenha dela recebido resposta conclusiva; se há algo que não pretendo fazer é infringir o disposto na regulação dos direitos de autor, o que, creio, não sucede; tendo também sido consultado para o efeito o departamento jurídico deste semanário, de onde resultou a ideia, com que fiquei, de que as limitações residiriam apenas na proporção entre a relevância (em quantidade) das citações face à totalidade do texto a publicar.
Assim, todas as citações que verão entre aspas, que reduzi ao mínimo, devo-as aos respectivos autores, sendo de minha inteira responsabilidade relacioná-las com os tais casos concretos, a cuja descrição e interpretação procedi, como verão nos parágrafos que se seguem.
Sendo do conhecimento generalizado que a Lei de Murphy “é o princípio segundo o qual tudo pode correr mal”, poucos saberão, contudo, que a origem da expressão remonta a 1949 e que se deve ao capitão Ed Murphy, um engenheiro de uma empresa de aeronáutica que se sentiu frustrado quando, “por causa do mau funcionamento de um aparelho, devido a um erro nas ligações eléctricas de dois manómetros de pressão, observou: se algo pode correr mal, correrá mal”. A divulgação rápida do nome dessa Lei adveio, por sua vez, da sua utilização em anúncios de diversas empresas industriais, o que foi dado a conhecer ao autor dos livros, o acima referido Arthur Bloch, pelo Director de Controlo da Qualidade e Segurança dum projecto a cargo da NASA, George E. Nichols.
Feito o intróito, como estruturei então a minha linha de raciocínio? Pensei em exemplos recentes, uns mais, outros menos, de situações que se viveram em Portugal, descrevi-as segundo as entendi e utilizei citações dos 3 livros para ilustrar “As razões para as coisas correrem mal” (Volume I), “Mais razões para as coisas correrem mal” (Volume II) e “Outras más razões para as coisas correrem mal” (Volume III). Consegui resistir à tentação de usar demasiadas citações, não que houvesse alguma que não valesse a pena explorar, mas antes pela “sensibilidade da matéria” em termos de direitos autorais.
Avancemos então, começando pela indicação do tema que analisei, dando-lhe algum contexto (da minha inteira responsabilidade) e depois, então sim, fazendo uso das leis, normas e corolários de algumas delas para tentar explicar as razões por que se verificou algum “infortúnio” nas acima citadas situações. Tanto quanto possível, respeitei uma ordem cronológica decrescente, ou seja, da mais recente para a mais antiga.
1. Desempenho da Seleccão nacional de futebol no presente Mundial - Críticas de diversa natureza e proveniência têm vindo a público no decorrer do Mundial de futebol que há dias terminou, em particular devidas à precoce (no entender de alguns) eliminação de Portugal da competição, de quem se esperava “mundos e fundos”...
a. “O defesa (ou atacante) que não presta é o que está em campo”
b. “Os factos que não se adaptem à teoria devem ser ignorados”
c. “O homem que consegue sorrir quando as coisas correm mal, pensou noutra pessoa a quem pode atribuir as culpas”.
2. Correcção dos exames nacionais - Adiamento por 4 dias, prazo depois prorrogado, do processo que permitiria aos professores reverem e classificarem os exames nacionais, motivado pela necessidade de correcção do software desenhado e instalado (mas, pelos vistos, testado há um ano sem um verdadeiro “teste de carga” e sem que tenha sido produzido um relatório formal dos resultados da experiência), provocou o caos em professores e alunos e, de um modo geral, em toda a sociedade.
a. “A complexidade do programa aumenta até exceder a capacidade do programador que tem de fazer a respectiva manutenção"
b. “Se uma instalação de teste funcionar perfeitamente, todas as unidades subsequentes de produção funcionarão mal”.
3. Prestação social única - No âmbito do PRR negociado com a UE, Portugal comprometeu-se a unir numa única verba as 13 prestações sociais não contributivas, simplificando o acesso aos apoios sociais (e, digo eu, podendo perder algumas centenas de milhões de € caso não cumprisse a medida).
a. “Ao procurarmos a solução de um problema, trabalharemos melhor se já conhecermos o resultado”.
4. A época de incêndios - Todos os anos (em especial no Verão) sucedem incêndios com enorme frequência e gravidade, todos os anos sendo feitos os mesmos diagnósticos e identificadas medidas de prevenção/atenuação da gravidade dos ditos incêndios. Apesar disso, nada de substancial melhora, sendo os recursos utilizados – materiais e humanos – cada vez maiores, ano após ano. Sucede até que são alugados meios aéreos de combate, verificando-se depois que estes só conseguem operar com temperaturas não superiores a 38 graus Celsius!
a. “Nunca há tempo para fazer coisas bem feitas, mas há sempre tempo para as deixar de fazer”
b. “Há uma crise quando não se pode dizer: “vamos esquecer o assunto”.
5. Extinção do SEF / criação da AIMA - A decisão, precipitada e não planeada, de extinção do SEF e de criação da AIMA, resultando na necessidade de transferência de competências entre diversos organismos para o efeito não preparados (exemplos, PSP, GNR, IRN) levou a um caos generalizado, tanto na entrada de imigrantes como nos atrasos da emissão de autorizações de residência, formação de intermináveis filas nos aeroportos nacionais, para dar apenas alguns exemplos.
a. “O tempo necessário para remediar uma situação é inversamente proporcional ao tempo gasto para a criar”
b. “Pôr mais gente a trabalhar num projecto atrasado, atrasa-o ainda mais”.
6. A tragédia do Ascensor da Glória - Diversas circunstâncias concorreram para um lamentável acidente, em que pereceram 16 pessoas e bastantes mais ficaram feridas. CARRIS, CML, MNTC desdobraram-se em explicações, dando contudo a sensação clara de que todas as entidades pretenderam “sacudir a água do capote” para cima das outras...
a. “Se houver mais do que um responsável por um erro, ninguém será culpado”
b. “A explicação dos desastres será feita por uma figura secundária”
c. “Qualquer aparelho que exija manutenção ou ajustamento deve ser colocado no sítio menos acessível”
7. Coroas de louros das colunas no topo do Parque Eduardo VII - Pela realização da Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa, em Junho de 2023, houve necessidade de montagem de um enorme palco, levando à reabilitação e restauro das Torres Monumentais, centrado na reparação do respectivo revestimento em pedra. Contudo, segundo informação que recolhi junto da Câmara Municipal de Lisboa, chegou-se também à conclusão, durante a preparação da empreitada, que as coroas sobrepostas às quatro colunas tinham os seus apoios em risco ao nível das suas peças de fixação e ligação ao betão e ao nível da base estrutural de betão armado (base de assentamento das coroas), que se encontrava bastante degradada. Foi depois decidido que seria apenas necessário substituir os espigões e ancoragem e executar uma limpeza global mecânica. Três anos mais tarde, as ditas coroas ainda não foram colocadas, depois de terem sido encontradas, protegidas por uma lona, em terreno da CML contíguo ao cemitério de Benfica...
a. “Nada do que puder ser alterado será alterado até que já não reste tempo para alterar seja o que for”
b. “Quando alguém se dispõe a cumprir uma tarefa, verá sempre os seus esforços contrariados pela intervenção inconsciente de qualquer outro elemento (animado ou inanimado)”.
Durante este processo de reflexão, lembrei-me, entretanto, de outras situações que achei por bem incluir neste texto, tanto pela oportunidade como pela recorrência, como ainda por tê-las experienciado eu próprio. São elas:
8. Publicação de sondagens sobre possíveis resultados eleitorais em momentos que não se justificam - A comunicação social, por “encomenda” seja de que partido for, disponibiliza-se a realizar sondagens das mais diversas naturezas e a divulgar os respectivos resultados do modo mais sensacionalista possível, em particular quando tais resultados favorecem as posições da oposição (seja ela qual for no momento).
a. “Após a análise diligente e esmerada de uma amostra, dizem-nos sempre que analisámos a amostra errada, a que não tem nada a ver com o caso”
b. “Se forem recolhidos dados em número suficiente, o método estatístico permitirá provar seja o que for”.
9. Proliferação de comissões e produção dos respectivos relatórios - A maioria das questões de carácter político ou técnico que justificam debates entre deputados leva, quase sempre, à nomeação de uma comissão ou de um grupo de trabalho a operar no âmbito da Assembleia da República. Primeiro que o resultado do seu trabalho seja “consensual” e o texto final aprovado e publicamente divulgado decorre, muitas vezes, tempo superior ao necessário e, em outras, que não seja cumprido o prazo inicialmente estabelecido para a conclusão das tarefas necessárias.
a. “Se um problema provoca muitas reuniões, as reuniões acabarão por se tornar mais importantes do que o problema”
b. “A eficiência da reunião de uma comissão é inversamente proporcional ao número de participantes e ao tempo gasto em deliberações”.
10. Mensagens automáticas do contacto telefónico com a Conservatória do Registo Comercial – recentemente, por necessidade pessoal, tentei contactar telefonicamente a CRC. Após selecção da opção que nos leva a contactar os serviços, surge, repetidamente, a mesma mensagem: “todos os nossos agentes se encontram ocupados. Por favor tente mais tarde. O tempo de espera pode ser inferior a 5 minutos”. Na realidade, esperar menos de 5 minutos para ser atendido até nem é mau, pensei... Contudo, até conseguir chegar à fala com alguém humano, a quem expliquei a minha questão, passaram 18’ e foi ouvida essa mensagem repetidas vezes.
a. “Ninguém repara nos erros grandes”
b. “As tarefas simples são sempre adiadas porque mais tarde disporemos de mais tempo para as executar”.
Não vos parece que Murphy foi um visionário, alguém que anteviu o que poderia correr mal no quotidiano de Portugal e que para tantas situações encontrou explicação?