segunda-feira, 17 ago. 2026

Luís Represas, o trovador corajoso

A dada altura foi-me referenciado para que o tratasse e, a partir daí, passei a conhecê-lo também como pessoa. Desse primeiro contacto impressionou-me, no homem, a postura, a determinação e a coragem.

Fui, como tantos outros, apanhado de surpresa pela notícia devastadora da morte de Luís Represas. A doença atraiçoou-o quando a sua incomparável voz tanto tinha ainda para nos dar e encantar.

Na saúde como na doença sempre o vi tão discreto e tão estóico. Sofreu sozinho e poucos se terão apercebido de que estava já muito doente e corroído pela dor enquanto, nas suas mais recentes aparições, o público encantado o escutava. Discrição e sentido de dever foram valores que sempre o vi nutrir.

Luís Represas estava perto de completar meio século de carreira, não o conseguiu, mas, estou certo, de que a sua voz perdurará por mais de um século, como era aliás um desejo seu, uma ambição que expressara.

Conheci Luís Represas em três dimensões diferentes: a do cantor que tanto ouvi, a do doente que tratei e a do amigo de que tanto gostava. E é nesta última qualidade que escrevo este in memoriam em sua honra, em que escolhi narrar a nossa breve história comum.

Comecei por ouvir Luís Represas, como tantos no meu tempo, um cantor “com garras e asas de condor”, um cantor de causas por si escritas e tão docemente cantadas. Sempre nele apreciei o timbre e a profundidade doce da voz, tão contrastantes com a dureza das causas pelas quais, usando-a, sempre lutava. Timor terá sido, por certo, uma das mais impactantes, na melodia como na letra, mas muitas outras houve em que, como poucos outros, filosofou sobre a vida, sobre os sentimentos, ou se revoltou com a injustiça, nunca por nunca sendo a ela indiferente, enquanto nos embalava na melodia.

A dada altura foi-me referenciado para que o tratasse e, a partir daí, passei a conhecê-lo também como pessoa. Desse primeiro contacto impressionou-me, no homem, a postura, a determinação e a coragem; é nos momentos de vulnerabilidade que se conhecem os homens e, mesmo nessa condição, não deixava de ser tão dignamente forte. Acreditava em si e no seu destino. Só então, entendi porque cantava, o que cantava, e a convicção com que sempre o fazia. Era tão autêntico!

Luís Represas foi o que posso apelidar do “trovador dos tempos modernos”, porque como os de então era nobre, nobre no carácter, porque como os de então escrevia letras com mensagem e, tal como eles as cantava para deleite de quem o ouvia.

Luís Represas era um homem de inteligência aguda, profundamente culto e de uma invulgar coragem, alguém que passou e dominou na vida de forma muito mais breve do que a sua própria lenda o fará e, que por isso, esteve sempre bem à frente do seu próprio tempo. Para mim foi um privilégio irrepetível ouvir e ter privado de perto com Luís Represas, que me permito chamar de “trovador corajoso”.

Quando um dia cantou a sua tão icónica “125 Azul” contou-nos “uma viagem sem destino, uma viagem para a liberdade de um destino incerto, na esperança de que algum dia se pudesse encontrar”. Esse dia chegou, o “ponto negro” surgiu, porque como nos ensinou, “a fúria de viver é mesmo a fúria de acabar...”

Desejo que o Luís Represas descanse em paz.

Na sua perda conforta-me pensar que, tal como nos cantou, “Deus leva os que ama” e “só Deus tem os que mais ama”.

Querido Luís, até um dia!

Cirurgião cardiotorácico