Portugal tem um grave problema de produtividade. Todos o sabem e, ao longo de anos que se perdem no tempo, as chamadas de atenção repetem-se sem que algum resultado objetivo se veja. Pelo contrário. Somos um país que parece gostar, sobretudo, de festa e descanso. Veja-se o que aconteceu, nas últimas duas semanas: feriados e mais feriados, baixas por doença providenciais encostadas aos sábados ou às segundas-feiras, pontes e mais pontes, para as quais até as greves contribuem. É caso para dizer que todos os santos ajudam à preguiça. Ainda por cima o sol traz o convite irrecusável para que se aproveite o abraço do mar. Acho que se trata de uma realidade inelutável: os portugueses não vão mudar. Não adianta tentar convencê-los de que não é possível, em simultâneo, sol na eira e chuva no nabal. Somos muito bons a reivindicar, a reclamar e a exigir. Temos sonhos de país grande, mas não nos convencemos de que para esses sonhos possuírem alguma consistência, é preciso lutar por eles. Não basta a vozearia e o dedo ou o punho erguidos. Regra número um: trabalhar e produzir, em esforço sério para gerar riqueza, que se possa distribuir.
Os políticos portugueses, voluntária ou involuntariamente, acabam por alimentar esse espírito. Os seus discursos, nunca dissociados da preocupação de agradar a quem os ouve, prometem não o que há, mas, sobretudo, o que querem que se acredite que trazem de prosperidade no baú. É uma novela sem fim. Se atentarmos em tudo o que foi dito, por ocasião do 10 de Junho, virou-se mais uma página de um livro, em que a história tem muita dificuldade em avançar. Estamos sempre a tropeçar no mesmo. O enredo não se altera, apesar das mudanças cíclicas de protagonistas. Jornalistas e comentadores esforçam-se por descobrir, nos discursos oficiais, nomeadamente, dos Presidentes da República, críticas, recados ou mensagens tendo como alvos os Governos, na pequenez de um ritual que se ajusta à dimensão do território. Este ano não constituiu exceção, nem mesmo no apelo de Seguro a uma melhoria dos salários, a mais justiça social e ao regresso dos emigrantes à sua terra. A flexibilidade de cintura de Luís Montenegro acomodou, diplomática e ‘patrioticamente’, a ideia da volta a casa dos portugueses que procuraram o estrangeiro como forma de vida. Aconteça o que acontecer convém passar a sensação de se vive na paz dos anjos. Faz parte. O fingimento anda de mãos dadas com a hipocrisia.
A realidade, no entanto, insiste em perturbar o jogo das ilusões. A guerra insensata que Donald Trump desencadeou, no Médio Oriente, está a lançar a disrupção na economia mundial, como se sabe. O aumento das taxas de juro que o Banco Central Europeu decidiu ontem é mais um sinal de que nuvens negras se adensam no horizonte. O impacto da subida do custo do dinheiro na vida do País e dos cidadãos não vai ser pequeno. O acesso ao crédito à habitação é um efeito visível, mas as repercussões acontecerão em cadeia. Sabemos todos isso. A lógica de estar sempre a confiar na capacidade assistencialista do Estado para resolver problemas e garantir tudo a todos, como se ela fosse ilimitada, não tem sustentação. Há uma enorme tendência para o esquecimento das lições do passado e a verdade é o que os sucessivos alertas de organismos europeus e até de instituições nacionais para a situação das contas públicas portuguesas deveriam acender luzes de alarme nos gabinetes ministeriais e nas sedes dos partidos. A fragilidade da nossa economia exige cuidados redobrados para que não se caia, de novo, nas malhas de um qualquer resgate como o que tivemos, ainda não há muito tempo, com a troika, de má memória.
Portugal vive um momento político peculiar, com um Governo que governa com base na conveniência das oposições. É um Executivo frágil, cercado, que diz não querer andar de mão estendida, mas, na prática, a tem aberta para recolher as moedinhas que lhe dão. Falar em reformas estruturais, neste contexto, não tem cabimento, a não ser como argumento de propaganda ou instrumento de jogos de Poder. As pressões de Passos Coelho são, na situação atual, inconsequentes, como irrealistas e apenas táticas as ações de André Ventura. José Luís Carneiro, por seu lado, parece um bocado perdido, a tentar descobrir ainda o lugar deste PS que lhe caiu no colo. Enfim, o futuro não se apresenta muito risonho e este último 10 de Junho não deu à luz nenhuma ideia nova quanto a uma efetiva regeneração do País, sem ser o do habitual apelo para que se distribua ainda mais o pouco que há. Não tenho esperança de que, daqui a um ano, o quadro seja muito diferente. Distinto mesmo só o local das cerimónias oficiais. Nem nos discursos antevejo produtividade com mais qualidade. Pelo menos.
NOTAS:
1. António José Seguro usou o veto político pela primeira vez. Devolveu à Assembleia da República o decreto sobre as regras de utilização de bandeiras em edifícios públicos e que visava a proibição das que se revistam de natureza ideológica. Ver-se-á agora se PSD, Chega e CDS encolhem as unhas.
2. Incrível a demora na identificação, pelas autoridades policiais, do automobilista que resolveu andar em contramão, na marginal Lisboa-Cascais. Difícil de admitir que uma Televisão, neste caso a TVI, tenha chegado primeiro.
3. A Seleção portuguesa vai para o Mundial carregada de esperança. Para que não haja desilusões será bom que jogue melhor do que o que se viu, nos dois jogos de preparação.