terça-feira, 21 jul. 2026

Terça-feira é outro dia

Há muito que se tornou evidente que se vive no universo do poucochinho. Roberto Martínez é um selecionador cujos fatos são feitos exclusivamente de prudência e conservadorismo. Já se percebeu que não gosta de arriscar e que não tem apelo interior nem competência para proceder a ruturas.

Em Portugal, a euforia cede lugar à depressão em dois tempos. Há dois dias, até às 18 horas, a Seleção nacional de futebol ia ganhar o campeonato do mundo. Às 20.00, os nossos jogadores, afinal, não valiam nada. De campeões quase anunciados passaram a atletas preguiçosos, deslumbrados com eles próprios e sem vontade de suarem as camisolas. Típico. Do oitenta ao oito é um ápice. Neste País é assim com quase tudo. A realidade não quer saber de manias de grandeza para nada, mas os portugueses persistem em agarrar-se a ilusões. Da política à economia, da saúde à educação, da segurança à cultura, na crítica e no aplauso, no elogio e na reivindicação, os sinais são sempre semelhantes. Ou reclamamos o infinito, porque a isso temos direito, ou mergulhamos no mais profundo dos poços, porque a justiça decidiu extraviar-se deste nosso mundinho. No desporto, as coisas não são diferentes.

Portugal não ganhou ao Congo, porque não foi competente. Ponto! Ir atrás dos culpados não adianta nada, se não for para encontrar soluções para situações futuras. É mais fácil apontar o dedo do que dar-se ao trabalho de arranjar coragem para tomar decisões fraturantes, termo que agora se gosta tanto de usar (como ‘resiliência’,um modismo tão irritante como as trotinetas que transformam as ruas em armadilhas).

Não sou comentador desportivo, nem ambiciono ser, do mesmo modo que não tenciono engrossar a legião dos técnicos especializados em ideias gerais. De qualquer maneira, não resisto a deixar aqui a opinião de que é tempo de Portugal, enquanto equipa de futebol, ter óbvia necessidade de passar a jogar com onze jogadores, em vez de dez. Cristiano Ronaldo conquistou o direito a figurar na galeria dos nossos maiores heróis em matéria desportiva. Incontestável. Creio que não haverá ninguém bem intencionado que não o reconheça e exalte as suas qualidades, entre elas, além do talento natural, a determinação e a força de vontade. Parece-me, no entanto, evidente que é tempo de o protegerem e de ele se deixar proteger. Só assim se conciliam os interesses do próprio (quaisquer que eles sejam) com os interesses da Seleção. Para que tal aconteça é preciso visão e coragem, que é o que me parece faltar em demasia, quando se observa o comportamento e analisam as decisões de quem tem a responsabilidade de montar a estratégia, escolher a equipa e geri-la em cada momento.

Há muito que se tornou evidente que se vive no universo do poucochinho. Roberto Martínez é um selecionador cujos fatos são feitos exclusivamente de prudência e conservadorismo. Já se percebeu que não gosta de arriscar e que não tem apelo interior nem competência para proceder a ruturas. Só assim se compreende que, com uma fantástica geração de atletas à sua disposição, eles se portem em campo com o receio comum a animais que não saem da toca com medo de que os abatam a tiro. Age-se como se os jogos se ganhassem jogando para o lado ou para trás ou as vitórias fossem contabilizadas consoante o tempo de posse de bola e não em função dos disparos certeiros dirigidos às balizas adversárias. Não faz sentido continuar-se a pensar que basta juntar jogadores de renome para as vitórias aparecerem. É tudo muito triste. Desvalorizam-se talentos sem necessidade e desperdiçam-se oportunidades para fazer história no futebol mundial. Se Martínez não consegue decidir, então alguém que o empurre, nem que seja pela persuasão, para intervir com rapidez, pois ainda se vai a tempo de seguir em frente neste mundial, embora a caminhada se tenha, subitamente, tornado mais complexa. Recordo-me de que, no Europeu que se realizou em Portugal, o selecionador de então, o brasileiro Luís Felipe Scolari, após a surpreendente derrota portuguesa na primeira jornada frente à Grécia, não perdeu tempo e retirou da equipa vacas sagradas habituadas a lugares cativos. Os resultados viram-se. Nessa altura, havia coragem nas veias de quem tinha por obrigação resolver problemas. Talvez se possa pedir alguma emprestada. Nunca é tarde quando se tem espírito vencedor.

O empate com o Congo poderá, eventualmente, ter servido de despertador para uma equipa autoconvencida. Os portugueses, com a generosidade comum aos bons torcedores, depois do trauma dos pontos desperdiçados, já arrebitam e comentam nos cafés e nas redes que nada está perdido. É a esperança a renascer. Descemos do oitenta para o oito. Estamos a retomar o percurso inverso, a caminho dos oitenta, novamente. O costume. Terça-feira é outro dia.

NOTAS:

1. Neste País, estão a acontecer coisas arrepiantes: mulheres morrem à fome num lar e uma criança de 8 anos é assassinada e o corpo largado no mato. Não param as notícias relativas a assaltos a casas, lojas e restaurantes. É uma sociedade cada vez mais doente. Os discursos securitários não contribuem para a cura.

2. Estados Unidos e Irão chegaram a acordo para calar as armas. Americanos e iranianos não se podem ver, mas as assinaturas dos presidentes lá estão. Escritas à distância, num sinal evidente de que a convivência tem a solidez de um fio de aranha.

3. Os elogios de Mark Rutte, secretário-geral da NATO, a Donald Trump são de uma subserviência vergonhosa. Não há diplomacia que justifique o agachamento. Pôr-se de cócoras não é propriamente uma posição que engrandeça e aporte respeito. Rutte já nos habituou ao servilismo.