sexta-feira, 13 mar. 2026

Problemas novos, remédios velhos

O volume de destruição, o alagamento do País e o sofrimento das populações estão a cavar ainda mais o fosso de desmotivação que o eleitorado vem revelando relativamente à eleição presidencial.

Ninguém está preparado para a devastação que o mau tempo tem provocado. Não alinho, pois, no coro de críticas que são atiradas ao Governo, como se fosse a ele possível travar o vento e atirá-lo, junto com a chuva, para longe do País. As demagogias, de qualquer tipo, provocam-me urticária. Imagens de efeitos de temporais em inúmeros sítios do Mundo entram-nos pela casa dentro, pela Televisão. Ainda recentemente, os Estados Unidos estiveram cobertos de um espesso manto de neve, com efeitos dramáticos no isolamento de populações e, aqui na Europa, situações semelhantes foram registadas. Em Espanha, por exemplo, há milhares de desalojados.

O que fica dito não me impede de reconhecer que a resposta à tragédia em que a tempestade se transformou poderia e deveria ter sido diferente. A angústia das populações afetadas merecia mais. O Presidente da República falou em deficiências na comunicação da parte do Governo, mas se a realidade impunha comunicação exigia, também, no mínimo, proximidade. Aquela que traz atenção, consolo e remédio ou, pelo menos, ajuda de emergência. Essa ajuda acabou por ir para o terreno, com os militares no apoio exigível, mas já quando o som do sofrimento e do desespero se fazia ouvir a um nível insuportável. Dificilmente alguém esquecerá o ar da ministra da Administração Interna, quando desceu ao terreno e ficou sem saber o que dizer, ao ser interpelada pelos jornalistas. Cena patética. Um erro de casting que Luís Montenegro terá de corrigir, a curto prazo, na remodelação que deverá já estar à espreita.

A destruição de habitações, infraestruturas e instalações fabris e comerciais, com repercussões diretas no emprego e bem estar de quem foi afetado, tem um impacto, segundo contas do Executivo, superior a quatro mil milhões de euros. Muito dinheiro e logo numa altura em que o Governo havia conseguido abater a nossa dívida pública em vinte mil milhões de euros, reduzindo-a a noventa por cento do PIB. Os planos governamentais, concebidos para darem resposta imediata aos estragos, já aprovados e anunciados, irão inevitavelmente revestir-se de impacto nas contas públicas. Uma vez que a margem positiva, prevista no Orçamento de Estado, se mostra exígua, será curioso observar como irá o ministro das Finanças acomodar essa despesa adicional.

O volume de destruição, o alagamento do País e o sofrimento das populações estão a cavar ainda mais o fosso de desmotivação que o eleitorado vem revelando relativamente à eleição presidencial. António José Seguro segue firme na liderança das pesquisas, em comparação com André Ventura, mas o crescimento dos indecisos e, sobretudo, a perspetiva de um incremento significativo dos votos em branco, são fatores evidentes de desencanto. Não interpreto esses indicadores como desinteresse, mas como insatisfação perante a escolha com que os portugueses estão confrontados. São mais um sinal de que o País está cansado do que vê e reclama modernidade e renovação nas políticas e nos protagonistas. A velha política e as dinâmicas sociais em transformação acelerada, impulsionadas pela digitalização da economia e do consumo, estão em choque. Para problemas novos soluções antigas não servem. As novas sociedades reclamam rumos distintos. O choque do futuro não convive bem com aquilo que são modelos e regras desgastadas pelo tempo e pela realidade. Não é difícil perceber que os nossos filhos e netos, uns com um presente desafiante e outros com o dia de amanhã cheio de incógnitas e angústias, queiram inovação e criatividade no enquadramento das suas vidas. A mesma lengalenga repetida muitas vezes está a desembocar na erosão da confiança, que tem de existir entre o povo e os seus representantes. Não me dei ainda ao trabalho de sobrepor discursos de há 40 ou 30 anos com os de agora, mas estou convencido de que as diferenças serão mínimas, o que não augura nada de esperançoso em relação às expectativas que os eleitores legitimamente alimentam. Mas de uma coisa estou certo: nada se alterará se não houver coragem de recrutar para a política os melhores e os mais capazes. Por fim à incompetência, ao oportunismo e ao carreirismo só se tornará possível atraindo gente boa, que aufira salários adequados, e desmantelando o miserabilismo que convida à corrupção e à mediocridade, que nivela por baixo em vez de exaltar a qualidade, o conhecimento e a competência. Ninguém, no seu perfeito juízo, aceita envolver-se em política, sujeitando-se à devassa da sua vida e suportando o escrutínio permanente das suas ações tendo como contrapartida uma remuneração que é tudo menos atrativa. Numa época em que tanto se fala de reformas estruturais, esta deveria ser reconhecida como prioritária. A falta de coragem para mexer no vencimento de ministros, deputados e autarcas é alimento para a pelintrice, a desonestidade e o compadrio. Reconhecer isso ė dar um primeiro passo para mudar Portugal. Talvez por aqui se possa iniciar um processo de transformação do País, que vá pondo cobro ao desfile de erros que gerações e gerações, umas atrás das outras, foram amontoando e que qualquer Kristin põe a nu, com uma rajada de vento.