Acho que o primeiro-ministro precisa de parar para pensar. Não quero fazer parte dos profissionais militantes da maledicência, mas é claro para todos - parece-me - que o homem que está à frente do Governo tem de por ordem na casa. Espera-se de Luís Montenegro que o grupo de ministros que escolheu funcione como uma equipa minimamente afinada. O que vemos, no entanto, é um bando de solistas, que condescende, de vez em quando, em deixar o seu olhar pousar no maestro, que, supostamente deveria usar a batuta com destreza e sensibilidade, mas que esbraceja sem sucesso na busca desesperada por harmonia nos sons.
À medida que o tempo passa vai ganhando raízes a ideia de que este Governo poderá, afinal, ser uma oportunidade perdida. Depois dos Executivos de António Costa, cujas saudades se esvaíram ainda antes da queda, esperar-se-ia um Governo de combate, unido na estratégia, coerente nas atitudes, firme nas decisões e solidário nas crises. Uma nau que, de forma competente, o comandante faria navegar até ao porto que traçara como destino. Ao fim destes meses todos, não é essa a imagem que subsiste. Estou cansado de ouvir falar de deficiente comunicação. Não há comunicação que valha quando o problema se prende com uma questão básica: de um Governo espera-se que governe e de preferência bem, não que se preocupe em que dele se fale necessariamente bem. A meu ver, se existe uma questão comunicacional, ela resulta de ineficiências e incapacidades da própria ação governativa, bem como da frustração das expectativas geradas nos períodos pré-eleitorais, com o cortejo de promessas que cobrem o chão das ruas.
Este é um governo minoritário que precisa decidir se quer a conciliação ou o confronto, se tem ideias próprias para mudar o País ou se o que traz é mais do mesmo, matizado apenas por uma forma diferente de gerir a crise. Uma opção ou outra não pode ser sustentada apenas em discursos mais ou menos inflamados e mais ou menos recheados de intenções, cuja materialização se revela, desde a primeira hora, altamente inviável atendendo à precariedade dos equilíbrios de Poder. Os portugueses não estão aqui para distribuírem simpatia. Estão cá, sim, para verem soluções para os problemas e dificuldades com que se defrontam, no dia a dia. A sensação que se foi instalando é que, ou por falta de capacidade ou por bloqueios vários, este Governo não sai do sítio. Justa ou injustamente, coisa que não interessa para nada nesta altura, facto é que o País continua mergulhado nas crises de sempre. Saúde, Habitação, Segurança, Educação e Imigração, por exemplo, são áreas sensíveis, que mexem profundamente com as pessoas e que de impasse em impasse ou de agravamento em agravamento minam a confiança dos cidadãos nos agentes do Poder. Há situações paradigmáticas quanto à eficácia e determinação dos governos. Em relação ao de Luís Montenegro, existe um exemplo óbvio de paralisia, que até chega a ser risível: o futuro aeroporto de Lisboa. Já se fazem apostas sobre se alguma vez será construído. Pelo menos, no sítio para onde foi apontado. Agora, discutem-se se uns quilómetros mais para a direita ou mais para a esquerda. Daqui a algum tempo, será a pergunta direta: vai mesmo acontecer? Não tenho memória de uma obra com um período de gestação tão longo e complicado. A manter-se o ritmo, quando (se) acontecer, corre-se o risco de já não haver aviões, substituídos, entretanto, por outra maravilha qualquer da tecnologia.
No fundo, o que realmente falta é um projeto com consistência e ambição para Portugal. Os governos e os partidos operam na lógica do curto prazo, o que inviabiliza qualquer modelo de sociedade que abra perspetivas aos jovens e não afunde a depressão dos mais velhos. O nosso País não vive alheado do que se passa à volta, nem consegue fugir aos impactos do declínio europeu. O que acontece atualmente em França, por exemplo, assusta, pelas perspetivas sombrias que se desenham no horizonte, com uma dívida pública imparável, leis laborais imobilistas e sistema de segurança social insaciável. Há um monstro à espera dos franceses e, ao primeiro estremecimento de França, dificilmente a Europa não se mostrará como é: um castelo de cartas até agora amarrado por frágeis fios tecidos pela política, cuja fragilidade os nacionalismos acentuarão.
Não vejo, na política portuguesa, sentido de Estado e prevalência do interesse nacional sobre egoísmos partidários e vaidades pessoais. Com uma situação internacional tão complexa e um panorama interno recheado de dificuldades, ambos a exigirem decisões com impactos para décadas, o País ganharia se dispusesse de uma classe política que espelhasse mais maturidade do que aquela que tem vindo a exibir. O estabelecimento de consensos alargados em torno de temas centrais e condicionadores do futuro de todos nós não seria revelador de fragilidade, mas antes um sinal de genuína preocupação com o bem estar dos portugueses. Andamos todos fartos da rendição à política espetáculo, já não toleramos a tentação do soundbite como mensagem e tornou-se insuportável o ar de Madalenas arrependidas ou de salvadores da Pátria que vários líderes ostentam, consoante as situações e os ambientes. A restituição de credibilidade e confiança à política nacional passa pela frontalidade e honestidade com que a realidade é encarada. Exigir, por exemplo, como acontece com frequência, a imediata demissão de alguém, ministro, secretário de Estado, ou gestor público, mal acontece qualquer coisa de errado, é o primeiro sintoma da menoridade com que a atividade politico-partidária se exerce nesta terra. Não se cuida de saber se há razões para isso, nem se não há alternativas à demissão com caráter mais prático e útil. Primeiro aponta-se o dedo e depois averigua-se! Ė tudo ao contrário…
Estamos em período de início de férias e, se calhar, muito do desvario a que se assiste já é efeito da silly season a bater à porta. Ainda que o calor possa influenciar comportamentos, não fica bem ao primeiro-ministro culpar os professores pelos problemas surgidos com os exames, quando se sabe que essa responsabilidade tem de ser assacada ao Ministério da Educação e à plataforma que este resolveu adotar para a correção das provas dos alunos. Aprecio as pessoas que sabem assumir erros e responsabilidades. O Governo será tanto mais respeitado quanto mais adulto se mostrar e quanto mais capaz se revelar para evitar os casos e casinhos para os quais, desgraçadamente, se tem deixado empurrar. O mais recente, o das obras em casa do ministro da Administração Interna, é das tais situações que causam mossa na credibilidade. Independentemente da intrigalhada de bastidor, que fala de acertos de contas entre lojas maçónicas, ou de outro género de motivos que a contrainformação bondosamente se apressa a pôr a circular, esgrimindo atenuantes, os estilhaços espalham-se e deixam cicatrizes. A reputação e a confiança são vítimas demasiado importantes para se observar tudo isto de ânimo leve e com um encolher de ombros.
O tempo corre contra Montenegro e os seus ministros. Não será uma qualquer remodelação que o salvará. Ou há ideias, projeto e capacidade para ir à luta, com inteligência e uma boa combinação de firmeza com diálogo, ou o melhor é consciencializar-se de que prosseguir uma atuação política em que se sai de um beco sem saída para outro não será mais do que um arrastar de pés doloroso e deprimente. André Ventura delicia-se com o que vê, tal hiena exímia a devorar cadáveres, e José Luís Carneiro não precisa de fazer nada para ver o PS recuperar alguma coisa.
Não se agarrem, pois, ao esfarrapado argumento de que o Governo tem um problema de comunicação. Tem sim um problema de governação. Resolvido ou atenuado este, a perceção muda logo.
Boas férias!