Não matem a esperança!

Maior turbulência da que existe no Médio Oriente e nos mercados mundiais era difícil de adivinhar para acolher a posse do novo Presidente da República. 

É com muito pouco ânimo que escrevo hoje. O Mundo é um lugar que se tornou altamente desagradável. Donald Trump começou uma guerra, de mãos dadas com Netanyahu, sem pedir o aval de ninguém e apoiado numa retórica que só ele consegue elaborar e que sustenta num montão de justificações vazias. Como a Historia tantas vezes nos ensina, mais difícil do que dar o primeiro passo é evitar tropeçar e cair. Já se percebeu que os americanos correm sério risco de se atolarem neste conflito com o Irão, arrastando consigo a economia mundial. Trump está a lançar o caos, a partir do Médio Oriente. Não percebeu que não é dono do Mundo e muito menos lhe assiste autoridade para subjugar a vontade dos povos. O poder destruidor das bombas não é nem pode ser a última palavra em matéria de resolução de diferendos ou divergências, das mais simples às mais complexas. Mais do que a posição do Governo de Espanha, muito motivada por questões de política interna, destaco, na crítica às ações dos Estados Unidos e Israel, o discurso da primeira-ministra italiana, no Parlamento. Não deixando de condenar a forma como o Irão responde aos ataques de que é alvo, disparando mísseis e drones para os países que lhe são vizinhos, Giorgia Meloni aponta o dedo a Washington pelas mortes de dezenas de crianças inocentes numa escola de Teerão, destruída por bomba americana. Pede mesmo uma investigação para apuramento de responsabilidades. Meloni, um dos dirigentes mundiais mais próximos de Trump, não hesitou em vir a terreiro condenar aquilo que toda a gente vê: uma ação bélica precipitada, sem respaldo de instituições internacionais nem respeito por convenções, com indisfarçáveis marcas de irresponsabilidade e comandada por um indivíduo em cujas veias circulam megalomania e destempero. É assustadora a perceção de que o Presidente dos Estados Unidos está alienado da realidade, construindo um mundo paralelo que só ele consegue ver. Onde deveria haver sanidade mental encontra-se, em vez disso, disfunção. O problema é que não há maneira de prever até onde tudo isso nos leva. O bloqueio do estreito de Ormuz está a ter repercussões terríveis, afetando preços dos combustíveis, inflação e taxas de juro. Impressionante a forma como um só homem, nos dias de hoje, consegue mexer com os equilíbrios do mundo. 

Em Portugal, como em todo o lado, os efeitos na economia são visíveis. A nossa vulnerabilidade, em matéria de combustíveis, é muito ampla. O Governo já vai avançando com algumas decisões visando mitigar subidas excessivas de preços, mas a ameaça de desvios no que respeita às metas para o Orçamento deste ano ganha cada vez mais corpo.

Maior turbulência da que existe no Médio Oriente e nos mercados mundiais era difícil de adivinhar para acolher a posse do novo Presidente da República. 

As primeiras palavras de António José Seguro e os seus atos iniciais teriam tido certamente mais impacto, se a preocupação com o estado do Mundo fosse outra. Pelo menos, políticos, analistas e comentadores teriam perdido ainda mais tempo a dissecar o seu previsível e arrastado discurso, na Assembleia da República, do qual retenho, sobretudo, uma nota: a de que dificilmente haverá, de facto, eleições legislativas antes da data prevista. Ao afirmar que o chumbo do Orçamento de Estado não implica necessariamente eleições, Seguro dá um sinal claro sobre o que pretende fazer, ou…não permitirá que aconteça.

Enfim, continuamos mais ou menos na mesma, rogando aos céus que não nos matem a esperança, perante o que se passa cá dentro e lá fora.