Não vou alongar-me em comentários sobre as eleições presidenciais. As análises e opiniões são tantas, em todo o lado, que o valor das palavras se degrada numa floresta com tamanha densidade.
Ficou em primeiro lugar quem se previa. Vai desafiá-lo, também sem surpresa de maior, o homem que beneficiou da fragmentação do eleitorado de direita. O duelo Seguro-Ventura não se revela propriamente muito estimulante, já que a probabilidade de o antigo líder do PS sair vencedor é altíssima. O interesse substantivo reside em saber-se quantos votos o líder do Chega conseguirá e até que ponto reúne munições para apertar ainda mais o PSD. Com o paiol muito ou pouco cheio, Ventura não vai dar tréguas a Luís Montenegro, que, se já vive apertado actualmente, ainda maiores dificuldades enfrentará. O seu objectivo de, como ele próprio diz, agregar a direita passa necessariamente por aniquilar o PSD. Encurralará o primeiro-ministro cada vez mais, obrigando-o a encostar-se ao PS e reforçando o discurso que, há muito, ensaia de que ele e o Chega - eles sim - são quem encarna os valores da direita e quem constitui, de facto, a oposição que quer a mudança.
Não é, pois, difícil de prever que Luís Montenegro e José Luís Carneiro irão ficar dependentes um do outro, andando de mãos dadas, mesmo que, na aparência, os entendimentos sejam apresentados como muito complicados de alcançar e o País se veja confrontado com cenas de tensão típicas dos filmes de suspense. Serão situações que se adequam ao temperamento de António José Seguro, que se sentirá como peixe na água na atitude conciliadora que certamente se empenhará em adoptar, forçando ou apadrinhando entendimentos que facilitem alguma estabilidade à governação. O futuro Presidente da República acabará por assumir o papel de estabilizador da democracia, tal como a conhecemos, num ambiente interno complexo e na altura em que, à escala mundial, se atravessam momentos de rara complexidade.
Donald Trump é Presidente há um ano. Doze meses bastaram para que o Mundo ficasse diferente. Equilíbrios desfizeram-se e alianças abanaram. A crueldade e a ganância enterraram a bondade e a empatia. O medo substituiu a tolerância e a lei da bomba passou a valer mais do que o compromisso ou a persuasão. As tarifas deixaram de ser, primordialmente, instrumentos para uso na gestão da economia para passarem a ser armas de combate político. Tudo em muito pouco tempo. Vertiginoso.
Para Trump, a única voz que interessa é a dele, porque a sua vontade é lei. A intolerância e a falta de cultura democrática são marcas inapagáveis deste período inicial do mandato. Os tiques imperiais estão todos à vista, dentro e fora dos Estados Unidos. As ameaças e os braços de ferro tornaram-se óbvios a olho nu, bem como a falta de coragem para ser consequente quando se trata de enfrentar quem lhe bate o pé. Evidência disso mesmo é a decisão de retirar as sanções que anunciou tencionar aplicar a oito países europeus que, resolutamente e de forma corajosa, se opuseram com firmeza à entrega, pela Dinamarca, da Gronelândia aos Estados Unidos, chegando alguns deles a destacar militares para a ilha. Perante resposta determinada e articulada, Trump vergou. Manteve a pose, mas viu-se forçado a retirar a ameaça e, com ar de pregador evangélico, dizer que acredita que as conversas que, entretanto, serão mantidas com os europeus chegarão a um entendimento satisfatório para as partes envolvidas. Não se coibiu, no entanto, de insistir que a Europa está a seguir caminhos errados. É típico: menino rico e caprichoso, incapaz de dar o braço a torcer, cego por um ego de proporções descomunais. Eu, que venho, de forma repetida, afirmando a minha desilusão perante as lideranças europeias, fiquei agradavelmente surpreendido por, pelo menos por uma vez, a Europa se ter posicionado com coragem, com voz grossa e com sentido de unidade.
Adivinham-se, pois, anos complicados. António José Seguro, que, como já afirmei atrás, parece reunir, à partida, condições para conquistar o direito a ocupar o Palácio de Belém, será chamado a mostrar o que vale, interna e externamente. Tem a vantagem de, observando o seu leque de apoiantes, dispor de um amplo consenso para poder agir. Assim o saiba fazer, de forma competente e arguta. De fracos dirigentes queremos todos estar dispensados. Veremos que escolhas se proporá fazer, quando tiver de montar as equipas que com ele trabalhem. Já reza o velho ditado: diz-me com quem andas dir-te-ei quem és…
1. É de bradar aos céus a decisão do Governo de montar um plano de socialização de prejuízos das empresas de restauração. Como muito bem sublinhava, esta semana, António Costa, no ECO, vão ser os contribuintes a suportar o custo da iniciativa, até aqueles que não têm condições para pagar os elevados preços que se praticam hoje em muitos restaurantes. Será através do Turismo de Portugal, que irá assumir as dívidas da restauração à banca, ainda a pretexto da pandemia. Não queremos todos o mesmo?
2. Deixo esta nota, porque a esperança é a última coisa a morrer: a delicada situação na Saúde obriga a que haja menos conversa e mais acção. Custa-me ver os hospitais e a assistência do SNS serem brandidos como arma de combate político. Se há campo em que políticos, independentemente de serem Governo e Oposição, se deveriam procurar entender, em torno de uma plataforma consensual, é este. Estando em causa a saúde dos portugueses, a gritaria, os protestos e a contínua crucificação de ministros, deveriam dar lugar a soluções responsáveis e que devolvessem credibilidade e confiança ao sistema.