Anos e anos a construir uma vida ensinam-nos que a idade não é um fardo. Longe de ser um fator limitativo, ela traz-nos a maturidade que nos permite enfrentar quedas e recomeços com serenidade, paciência e verdade. O tempo que se carrega não tem peso, se o imaginarmos como o professor que nos acompanha desde os bancos da escola primária e que, diligentemente, nos transmite conhecimento e ajuda a crescer, levantando-nos do chão quando erramos e festejando connosco quando o sucesso nos alegra a alma. A experiência é um património inestimável, porventura, a maior riqueza que alguém consegue acumular. É daquelas coisas que ninguém nos pode tirar, mesmo quando a descrença assoma em frechas de sombra que a vida sempre abre, porque a perfeição tem de ser percecionada como um objetivo que se ambiciona e o pavimento do caminho até ela é repleto de escolhos. Somos feitos de momentos tristes e ocasiões felizes, já se sabe. Não somos só uma coisa ou outra. É nesse equilíbrio, sempre instável, porque imprevisível muitas vezes, que a personalidade se forma e a consciência do mundo se adquire. Muito bom chegar a esta altura da vida e poder dizer, olhando para trás, que os quilómetros percorridos valeram a pena, sem grandes arrependimentos. Cada dissabor foi e continua a ser uma lição e cada sorriso uma mão estendida para a satisfação, por muito breve que ela seja.
É à experiência que devo a capacidade de resistir à adversidade e é ela quem me leva a encarar pachorrentamente as críticas, sendo certo que se revela cada vez mais difícil encontrar pessoas ou acontecimentos que despertem em mim alguma surpresa genuína ou sensação verdadeira de novidade. Muitos anos no Jornalismo e na Televisão, por paixão, a viver ao ritmo incessante do segundo, proporcionaram-me ferramentas privilegiadas para procurar gerir com eficácia a economia das reações ao que à minha volta se vai passando. Há ocasiões em que se exige temperatura máxima na fervura, mas há também muitas em que colocar gelo nos pulsos é o remédio mais adequado para enfrentar qualquer assunto, por mais perturbador que se mostre.
Há muito destempero no ar. Vejo, ouço e leio coisas inenarráveis, quotidianamente. Tropeço, com dispensável frequência, em gente que escreve e debita opiniões sem sequer refletir uma única vez antes de colocar uma letra à frente da outra. Não é exclusivo, contrariamente ao que se seja tentado a concluir, das redes sociais, esse território de eleição para a calúnia e a infâmia comprarem as rações de que se alimentam. Não são raros os escritos, em certos jornais, por exemplo, que espelham a ausência de princípios dos seus autores, a falsa moral que apregoam e a falta de coragem que os acompanha, evidenciada no recurso ao pseudónimo como prática recorrente. A cobardia sempre foge ao combate em campo aberto.
O melhor, portanto, é atribuir a cada um o seu efetivo valor facial e continuar a caminhada. É um conselho que repetidamente dou, certo de que, quando se confia nas ideias próprias e existe determinação para executar os projetos em que se acredita, apesar de deslizes e percalços a que ninguém está imune, o percurso só tem uma direção: andar em frente. O ruído da matilha a ladrar não pode ser o que define o sentido da marcha.
Atente-se no caso de Rui de Carvalho, tão justamente homenageado pela Assembleia da República, há poucos dias. À beira dos cem anos, continua a ver reconhecidos os méritos que o guindaram ao estatuto maior que todos lhe reconhecem. A sua força de vontade e o prazer que lhe dá a arte de representar continuam a dar solidez ao enorme talento que irradia, em cada gesto e em cada palavra que a sua voz enrijece.
Volto ao princípio: a idade é apenas uma medida de tempo que transporta um compêndio de ensinamentos para se encarar os desafios da vida.
Fundamental ver, ler e ouvir… mas decidir pela própria cabeça. É agir em conformidade. O resto torna-se irrelevante.