sexta-feira, 07 ago. 2026

Males de Verão

Como a vida não pára, o melhor remédio é sempre olhar em frente e construir um dia de cada vez, acreditando que o que se segue será melhor do que o anterior

É uma chatice estar doente. No Verão, então, é insuportável. Nesta altura do ano, uma gripe é dos piores adversários que há para enfrentar. A dor de cabeça martela o cérebro, o corpo queixa-se com as alfinetadas dos picos de febre e não há nenhum refúgio onde se esteja bem. Surpreendido por um frio quase polar (pelo menos, pareceu-me!) em São Paulo, virado do avesso pelo calor abrasador de Lisboa e obrigado a procurar consolo no ar condicionado, acabei por sofrer os impactos de um clima cada vez mais inclemente e difícil de controlar.

Como a vida não pára, o melhor remédio é sempre olhar em frente e construir um dia de cada vez, acreditando que o que se segue será melhor do que o anterior. Aqui estou, pois, a retomar a conversa consigo, amigo leitor, após duas semanas de ausência.

Traumatizado, como a maioria da população portuguesa, com a Seleção nacional de futebol. Já tenho idade suficiente para não ir em cantigas, mas a verdade é que, competição após competição, cá voltamos todos à cega-rega do costume. Alguém tem sempre o condão de nos pôr a acreditar que somos os maiores do mundo. Desta vez, é certo que tínhamos um leque de jogadores de escol, porventura, uma geração única de atletas, habilitados a pedir meças a qualquer opositor. Não fomos capazes, no entanto, de respeitar dois diagnósticos, correspondentes a outras tantas dúvidas a reclamarem respostas claras e corajosas: será que o nosso selecionador estava à altura das exigências ?; Cristiano Ronaldo ainda reunia condições para ser titular indiscutível ?

É fácil ser certeiro depois de os jogos terem terminado, mas é óbvio que, quer num caso, quer noutro, ficou evidenciado que a conclusão de ambas se desenha com apenas três letras: não! Lamentável é o facto de esse desfecho ser pressentido como previsível e ninguém ter feito nada. Roberto Martínez foi um selecionador banal, medroso, inapto para fazer brilhar o ouro que lhe havia sido entregue. È impossível Pedro Proença não ter percebido isso e questiono-me sobre qual a razão para o não ter despedido, depois da Liga das Nações. Bem sei que vencemos a prova, mas era uma competição menor, sem o apelo de um Mundial, para cuja vitória se fartavam de nos dizer que estávamos talhados. Cristiano é outro caso. Não se lhe pode apontar a responsabilidade maior pelo medíocre percurso feito pela nossa Seleção. Só Martínez não teve capacidade para perceber que as dinâmicas que os jogos exigiam reclamavam um homem de área com outras características. Não estaria a escrever estas palavras – e faço-o com pena – se a principal figura da Seleção nacional tivesse menos dez anos. Cristiano é credor das maiores homenagens, mas ficou patente, aos olhos do Mundo, que não transporta as mesmas capacidades de antigamente. Só a vontade não chega, em alta competição. Como em tudo, afinal. CR7 não merecia o que teve de viver nem a forma como foi exposto, perante milhões de espetadores do mundo inteiro.

Enfim, desceu o pano sobre o Mundial, fiquemo-nos, a partir daqui, no que vai acontecendo por cá, no meio do sol e do calor.

Há meses, elogiei Fernando Alexandre como o melhor ministro deste Governo. Estaria longe de imaginar que o Ministério da Educação, que tutela, se embrulharia numa confusão nunca vista com os exames nacionais. Culpa dos sistemas informáticos ou não, o certo é que as famílias portuguesas não mereciam isto. Exige-se um esclarecimento que as pessoas entendam, sem subterfúgios, nem argumentações vãs, revestidas da habitual banalidade do discurso político. Tem de se perceber igualmente se houve ou não favoritismo e compadrio na escolha da entidade a quem o Ministério entregou a gestão do assunto. Não é tolerável qualquer falta de transparência no processo.

Impressionante é também o que se passa em Almada. Um dos maiores concelhos do País não consegue garantir o regular abastecimento de água às populações. A primeira vez que me falaram do assunto, pensei tratar-se de uma piada desajeitada. Afinal, é mesmo uma questão que não pode deixar de ser encarada como desleixo e incompetência. A presidente da Câmara de Almada já deu muitos tiros nos pés. Este é mais um, com consequências para a vida de quem habita ou visita o concelho, um dos mais populosos da cintura de Lisboa. Como não resolver este problema, a tempo e horas? Incrível! Em situações destas, o erro não é admissível. Espero que seja devidamente punido nas urnas. O poder autárquico não pode ser descredibilizado desta forma. Inês Medeiros não deixa saudades.

Não sei se Donald Trump foi, como eu, afetado, por alguma febre estival. O que é certo é que os delírios do Presidente americano não dão mostras de ceder, mostrando persistente resistência aos antibióticos. O que disse da NATO e dos seus responsáveis é de bradar aos céus. As ameaças a Espanha idem. O contorcionismo que o leva a passar da intimidação ao elogio, em questão de segundos, entrará seguramente para os anais da política internacional. Parece coisa de doidos. O reino da esquizofrenia a assentar arraiais, na banalização da ameaça e da chantagem. Triste, muito triste, é mesmo ver Mark Rutte, o secretário-geral da Aliança Atlântica permanentemente de cócoras perante Trump. Numa organização recheada de generais e almirantes, Rutte é o cordeirinho desvalido, sem opinião nem vontade, que estende a passadeira vermelha ao imperador americano. Os outros, os restantes líderes parceiros da NATO, não passam de figurantes de voz fraca.

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