segunda-feira, 09 fev. 2026

Jornalismo e a importância de acreditar

A questão fundamental a considerar é só uma: a democracia obriga à aceitação do princípio da convivência de ideias e pontos de vista diferentes sobre a sociedade e as relações interpessoais

A facilidade com que se atribui às sondagens a responsabilidade pelo desfecho de uma eleição é coisa que não deixa de me impressionar. Ainda agora, por ocasião da primeira volta das presidenciais, voltei a ouvir o velho e gasto argumento de que a Comunicação Social e as sondagens é que determinaram quais os candidatos que se apurariam para a disputa final. Meio século depois do 25 de Abril, realizados mais de setenta atos eleitorais no País, continuamos com uma conversa que desconsidera a real capacidade do eleitor para pensar pela sua cabeça. Para quem perde, pelos vistos, o problema não reside na sua falta de habilidade ou competência para convencer os portugueses das virtudes das teses e propostas com que se submete ao voto popular, mas sim numa conspiração alargada, que envolve empresas de comunicação, jornalistas e autores dos estudos de opinião. Tratar-se-ia de uma teia espúria, tecida de intrigas e com valores assentes em objetivos suspeitos, tudo construído em cima de correlações eivadas de falsidade. Enfim, é um peditório para o qual, sinceramente, nunca estive nem tenciono estar disponível para contribuir. Aceitar raciocínios deste tipo é o mesmo que pôr em causa o essencial dos princípios da atividade jornalística e deitar por terra a credibilidade das entidades que se dedicam à elaboração de estudos de mercado.

A questão fundamental a considerar é só uma: a democracia obriga à aceitação do princípio da convivência de ideias e pontos de vista diferentes sobre a sociedade e as relações interpessoais. Respeito e tolerância são peças fulcrais no contexto de um sistema em que o exercício de Poder, neste caso, o poder político, resulta do apuramento de um conjunto amplo de vontades, que se consubstancia numa maioria para a qual conflui. Em traço grosso, é assim que funciona. Percebo a frustração a que um desaire conduz, mas dificilmente convivo bem com o apontar do dedo, numa lógica de passa-culpas, a quem procura, mesmo reconhecendo não ser infalível, efetuar trabalho sério, competente e honesto.

Se decidi dedicar estas linhas ao assunto é porque vivemos numa época em que se torna fundamental defender a credibilidade do jornalismo perante as ameaças que o cercam, a começar pela desinformação que grassa por todo o lado, como as ervas daninhas. O que se passa nas redes sociais, por exemplo, é assustador e requer um posicionamento intransigente de escrutínio pela verdade dos factos, para erradicar a manipulação, a propaganda e o engano. Não sou adepto de fundamentalismos de nenhuma espécie, mas se há intransigência que entendo dever ser subscrita por todas as pessoas de boa fé é a que devolve ao jornalismo a dignidade que, ano após ano, crise após crise, se lhe tenta subtrair. A afirmação da democracia, em plenitude, faz-se com a liberdade de informar e de opinar, de forma consciente e responsável. O direito à crítica é inviolável, bem como se tem de assumir como essencial a obrigação de suportar pontos de vista diferentes dos nossos. É nesse desafiante convívio de matizes de pensamento que a democracia se enrijece, mesmo quando o extremismo tenta abafar a liberdade pela lógica do pensamento único e pela orquestração da gritaria.

Aprendi, com os anos e a experiência, a aceitar a divergência, sem que isso signifique subjugação a ideias alheias. A força das convicções traça o rumo das nossas vidas e a as escolhas pelas quais enveredamos condicionam os nossos passos. Para um jornalista, a honestidade de princípios é condição essencial no seu código comportamental e a clareza de pensamento idem. A par da coragem para enfrentar a realidade do que os olhos testemunham.

Estes são tempos duros, por múltiplas razões que aqui não cabe escalpelizar e com uma enorme complexidade que as mudanças tecnológicas acentuam.

Em Televisão, o percurso é uma avenida larga, que vai abrindo os braços em ruas e ruelas estreitas. Sempre mais e mais apertadas, onde se torna cada vez mais difícil sobreviver. A confiança entre quem produz e quem recebe, a solidez da relação entre produtor e recetor, são fundamentais para quem busca o sucesso, neste ambiente fragmentado.

Acredito que, nas novas gerações, existirá gente com vontade e energia para fazer com que os pressupostos que sustentam a profissão se revigorem e modernizem, porque há atividades imprescindíveis à nossa existência.

Afinal, estando o Mundo sempre em mudança, todos precisamos de nos ajustar a novas realidades. É o caso da política. O que a campanha eleitoral relativa à primeira volta e a que está a decorrer para a segunda revelam é que a urgência de modernidade e renovação se tornou premente. O eleitorado é confrontado, há anos, muitos, com ideias repetidas e frases mil vezes ouvidas. Nisso reside grande parte do problema com que a sociedade portuguesa está confrontada e com o desencanto que favorece a desilusão e o surgimento de extremismos. Aí, nesse conjunto de circunstâncias, se deve ancorar, em boa medida, o que as sondagens espelham e encontrar as razões pelas quais há propostas que os eleitores rejeitam.

P.S. 1 – O temporal que varreu o País provocou uma onda de destruição impressionante. É a confirmação da força da Natureza, que não se deixa domar, perante a vontade e estilo de vida dos homens;

P.S. 2 – Parabéns às equipas portuguesas nas competições europeias: comportamento exemplar superando desafios aparentemente intransponíveis. Grandes entre os maiores!