A última atitude do líder do Chega é a proposta que lançou para o ar visando a redução da idade para a reforma. Foi mais longe ainda: a aceitação desse princípio é condição para, no Parlamento, aprovar o pacote laboral. Além da demagogia, é a chantagem assumida como instrumento efetivo da ação política. Ao mesmo tempo, não tem respeito pela inteligência dos portugueses, ao pensar que ninguém percebe o irrealismo do que propõe e a permanente caça ao voto que o anima. Tem razão quando afirma que a carga de impostos direta e indireta é muito pesada, mas isso não legitima a irresponsabilidade e insensatez de quem apregoa, aos quatro ventos, que quer vir a liderar um Governo. Ventura deve viver noutro mundo e noutra era. Nem sequer ainda deve ter entendido que estamos à beira de uma crise económica gravíssima, que os sinais estão todos aí e que, além do mais, o aventureirismo do seu ídolo Donald Trump está a fazer mergulhar todos, nós e os outros, numa situação de contornos imprevisíveis e a reforçar perspetivas já de si sombrias. Em quase quarenta anos, tivemos o FMI a assentar arraiais em Portugal, por três vezes. Ainda ninguém se esqueceu do que foi o conjunto de imposições da troika e dos impactos da austeridade e da limitada independência para gerir os seus destinos que o País conheceu. Enfim, o despudor que se atinge está a ir longe demais, com a hipocrisia e a mentira a assumirem-se sem qualquer espécie de vergonha. Atente-se nisto: «…todos acham, todos estão sempre preocupados se vão ganhar votos. Vocês já se habituaram que eu não quero saber…» André Ventura dixit. Não vale a pena avançar mais comentários…
A talhe de foice, justifica-se olhar para o pacote laboral e encará-lo como aquilo em que ele se transformou. As propostas do Governo, de tantos ajustes de que foi alvo, na ânsia de obtenção de consensos com os parceiros sociais, já não é o que era. De pacote passou a pacotinho onde se acotovelam acertos, de questionáveis repercussões. O fato número 56 encolheu para um tamanho dez vezes menor, não justificando, a meu ver, honestamente, todo o alarido que ainda desperta. Não é nada que surpreenda, dado que Portugal é a terra das meias-tintas, o sítio ideal onde medra a cultura do adiamento, sob a capa do diálogo e da necessidade de entendimentos permanentes. É por isso que chegámos onde chegámos, acreditando sempre que seria possível colocar, no mesmo lugar, o sol do Verão a conviver com o gelo dos polos sem este se derreter.
Nessa perspetiva, foi um autêntico bálsamo ouvir, há três dias, a responsável do Grupo Luz Saúde, Isabel Vaz, numa conferência organizada pela CNN Portugal, na Fundação Champalimaud. Não se trata de concordar com ela ou não. A observação da forma desassombrada e sem papas na língua com que disse o que pensa sobre o estado da Saúde, em Portugal, deveria, porventura, revelar-se um encorajamento sério para a abolição dos discursos redondos, que percorrem transversalmente a sociedade e que contribuem para que as coisas fiquem mais ou menos na mesma, ainda que se apregoe a mudança e se mobilizem milhões para atiçar os incêndios em que ardem os problemas, como se o custo fosse o de uma pastilha elástica. Repito: não se trata de estar de acordo ou em desacordo com Isabel Vaz, que mal conheço. Em questão apenas a atitude. A ausência de medo e a capacidade para assumir e defender um ponto de vista. É matéria que se tornou rara, num mar de cinzentismo. Ao contrário de André Ventura, vi consistência nas teses, discutíveis certamente, que defendeu, bem como nas do ex-ministro da Saúde do Reino Unido, Andrew Lansley. Quando se ouve gente que sabe do que fala e que fundamente a argumentação, sempre se aprende alguma coisa.