Acho que nunca acompanhei uma eleição, em Portugal, com tão pouco interesse como agora. É por obrigação jornalística e menos por entusiasmo que sigo atentamente estas presidenciais, que procuro interpretar as mensagens de cada candidato e que tento perceber as indicações que o eleitorado vai deixando transparecer, através, especialmente, dos estudos de opinião que estão em curso. Nesse aspecto, a tracking poll que, de forma ousada e profissional, a TVI e a CNN, em conjunto com a Pitagórica, divulgam, dia a dia, desde o início da campanha eleitoral, tem-se revelado óptimo instrumento de trabalho.
A verdade é que a política portuguesa, a meus olhos, está transformada numa peça de teatro pobre e sem interesse, com protagonistas secundários guindados a primeiro plano e bolsos vazios de ideias. Anda extraviada a inteligência que mobiliza e encontra-se em lugar incerto a capacidade de gerar um projecto de país, que afaste as nuvens de imobilismo que embrulham Portugal. Fala-se muito, grita-se ainda mais, mas as palavras perdem-se no vento que apaga discursos sem mensagens novas e transformadoras, por muito que quem as profere as tente pintar de cores radiosas. É o que é. A realidade não se altera a pedido. Infelizmente.
Iremos acabar por ter alguém em Belém que sai de um molho de concorrentes de recurso. Uns que só nasceram para esta corrida impulsionados por vaidade própria incontrolável, outros emanados das lógicas da velha política, outros ainda porque se consideram maiores do que o próprio País. Marcelo Rebelo de Sousa é talvez, independentemente dos erros que cometeu – desnecessários e até em demasia – o último representante de uma geração de políticos, de craveira intelectual superior. Goste-se ou não, deixa marcas.
Portugal precisa de quem tenha uma visão de País e do nosso papel no Mundo, que vá além do provincianismo raquítico que, há anos, nos governa. Na época conturbada em que vivemos, com o planeta sacudido pelos humores, inconstâncias e tentações de grandeza de Donald Trump, precisamos todos – aqui, neste recanto, e em toda a Europa - de quem tenha voz, de quem não se acobarde, de quem aglutine, de quem não ceda à chantagem, nem se deixe abater perante a linguagem da ameaça e da força militar.
O que o presidente dos Estados Unidos faz hoje é inadmissível e exigiria da parte dos dirigentes europeus uma resposta firme, robustecida na dignidade dos povos que representam.
Custa-me ver a Europa de cócoras, seja por causa da Rússia, seja por causa da Gronelândia. É uma subalternidade exasperante, que apenas espelha um continente em decadência, por culpa própria. Quem não se dá ao respeito jamais será respeitado. Donald Trump considera-se investido de um poder ilimitado, recuperando a noção da velha América, toda poderosa. Não aprendeu com as lições do passado, nomeadamente, com os desastres no Vietname e no Afeganistão. O Mundo é a sua sala de brinquedos, que se usam ou deitam fora consoante os caprichos do momento.
As nações europeias são portadoras de riqueza histórica e cultural única. Em honra do seu passado e de tudo o que transportam não podem nem devem comportar-se como cordeirinhos que seguem um pastor, ainda por cima destravado. A Europa atrasou-se, nos planos industrial, científico e tecnológico. Deixou-se ficar para trás economicamente. A sua estrutura de protecção social forte é um fardo enorme. Tudo isto é sabido, mas nunca é tarde para arrepiar caminho. Tal como é suposto um filho deixar o tecto protector da casa paterna, ao atingir a idade adulta, também a União Europeia se tem de emancipar em relação aos Estados Unidos, refazendo-se, refazendo as suas alianças, escolhendo os seus inimigos e traçando o seu destino, livre de tutelas. Ficar sujeito às erráticas políticas de um qualquer presidente americano não só é humilhante como fatal.
Perante este quadro, acaba-se por compreender que as gerações mais novas se rebelem, inquietas, e que os radicalismos ganhem espaço, na falta de caminhos de esperança e razoabilidade.
É neste quadro que se realizam as eleições presidenciais portuguesas e que será escolhido alguém que, dentro dos limites da sua função, se assuma como contribuinte activo para a regeneração do País e um protagonista respeitado no contexto europeu. Em suma, precisamos de um estadista. Aquilo de que carecemos, há demasiado tempo.