Curioso ver Pedro Passos Coelho dizer publicamente que o País está sufocado em impostos. Mais surpreendente ainda ouvi-lo revelar qual o vencimento líquido que aufere, conhecida que é a discrição com que envolve a sua vida. Lamentar com veemência, como fez, em conferência numa universidade, a redução brutal que o seu ordenado de professor sofre, por causa da carga fiscal que sobre ele incide, significa que ficam distantes os tempos em que considerava milionário um salário de 5 mil euros.
Nunca é demais andar-se com os pés no chão, num país com as debilidades estruturais de Portugal, pequeno e pobre, independentemente de todo o pó que propagandas políticas insistam em atirar-nos para os olhos. Ao longo de décadas, apostou-se muito dinheiro em autoestradas e grandes obras públicas, mas menos do que o necessário e recomendável em investimentos criadores de riqueza, de forma sustentada. Embora os discursos partidários exaltem o futuro, a verdade é que do futuro não se cuidou tanto como se apregoa, pois as visões de curto prazo foram sempre adiando aquilo que não era suscetível de gerar ganhos imediatos, com o voto em mente. Sol na eira e chuva no nabal é miragem numa realidade repleta de cicatrizes deixadas por dificuldades e limitações de séculos.
A questão fiscal é dramática. Um dos escolhos objetivos que não favorecem o crescimento económico é a carga de impostos, que retira a Portugal capacidade competitiva com o exterior. Se a morosidade da Justiça atrapalha e a legislação laboral se revela favorável à criação de entropias nas dinâmicas da produtividade, a voracidade do fisco constitui um inimigo sério para o desenvolvimento e para o emprego. Ninguém ignora que assim é, mas todos se revelam incapazes de dar passos determinados para mudar o que há. Sina portuguesa. Somos muito bons nos diagnósticos e nas promessas, mas pouco consequentes e voluntariosos na hora de agir.
A verdade é que a economia nacional não liberta recursos para sustentar o Estado Social que temos. Somos um país que vive de subsídios. Milhões de portugueses só se aguentam, porque a Segurança Social lhes põe a mão por baixo.
O mesmo para o empresariado. São poucos os que não procuram o regaço do Estado para proteção dos seus investimentos, como se os cidadãos tivessem de se solidarizar com os riscos que os termos ‘empresário’ e ‘investidor’ implicam.
Quando ganhou as eleições, já lá vão muitos anos, Passos Coelho era portador de uma mensagem de esperança. Esperança na reativação da economia, numa justiça igual para todos e na limpeza radical da corrupção e do compadrio. Teve azar, porque apanhou com a troika e com a austeridade que se abateu sobre Portugal. Foi assumidamente o rosto de políticas impopulares e não se livra da sensação de insensibilidade com que lidou com a questão das pensões.
O lamento que agora deixa sobre o impacto do fisco na vida das pessoas soa quase como o reconhecimento de que, também ele, terá ido longe demais. Nunca é tarde para reanalisar o que se viveu e aprender com a experiência. Dos outros e nossa.
Passos Coelho já nos habituou a que não tem por hábito falar só porque sim. Estão a tornar-se frequentes as suas intervenções. Também se sabe que não morre propriamente de amores por este Governo. Pedra a pedra vai construindo um caminho, permitindo que se crie a ideia de um eventual regresso sebastiânico reunificador de uma Direita partida e falha de projeto. Humanizar-se é um passo nesse caminho, onde a ingenuidade não tem lugar.
Notas soltas:
1. Finalmente o Governo português alinha com a revisão das relações com Israel. Só peca por tardia e com sabor a envergonhada a sua decisão.
2. Trump, cada vez mais embrulhado no beco sem saída que é o conflito com o Irão, foi à China. Indisfarçável a imagem de humilhação perante Xi, o líder chinês.
3. Mourinho mal. Rui Costa mal. O Benfica não merece isto. O maior clube português não é o que se tem visto, nas últimas semanas. Não pode ser.