segunda-feira, 14 set. 2026

Cuidado com as pensões

Não há, no mundo, uniformidade nos sistemas que garantem as pensões. Mais públicos e mais privados ou mistos, mais agarrados ao Estado ou mais dependentes de responsabilidade individual, são múltiplos os modelos que se observam

Há matérias que, pela sua importância estrutural , deveriam ser objecto de amplos consensos na sociedade.

A questão das pensões é uma delas. Todos os portugueses, mais cedo ou mais tarde, ficarão dependentes de uma reforma. Uns mais do que outros, mas todos terão direito ao que os descontos de uma vida inteira de trabalho, as contribuições ou a solidariedade que devemos uns aos outros nos faculta. Por todas as razões, encaro com muita reserva a tentação do uso das pensões e dos pensionistas como armas de arremesso na luta política.

A actual discussão em torno do financiamento da Segurança Social e da sua sustentabilidade chega a parecer-me despudorada. Independentemente dos estudos que se façam e da qualidade de quem os elabora, há que tentar perceber o sentido de oportunidade com que os resultados acabam por ser disponibilizados à opinião pública e o aproveitamento que deles se tira. Aprendi que as coisas, em política, dificilmente acontecem por acaso. A verdade é que à conta da divulgação de um trabalho encomendado pelo Governo se reacendeu um debate que, mais uma vez, assenta na dicotomia direita/esquerda, num assunto cuja transversalidade talvez aconselhasse mais entendimento e menos confrontação. Numa época de tanta turbulência no mundo, com conflitos sem fim à vista, mercados instáveis e economias em stress, qualquer cidadão dispensa mais tensão e incerteza na sua vida. No caso dos reformados, por maioria de razão.

É claro que a realidade mudou e que as transformações a que assistimos à escala mundial acontecem a uma velocidade inimaginável, até há pouco tempo atrás. O comércio electrónico e as plataformas digitais têm dizimado negócios tradicionais; assistentes virtuais ocupam o lugar dos call centers; softwares substituem tarefas administrativas. Para não irmos muito longe, reconheçamos que o negócio da Televisão mudou. O digital fez explodir a concorrência, alterando hábitos de consumo e abalando toda a estrutura de receitas, colocando desafios complexos às empresas de média e ameaçando a sua sustentabilidade. Até há 10 ou 15 anos atrás, a liderança da TV generalista discutia-se à volta dos 30 por cento de share; hoje, atingir 16 ou 17 por cento de share, nos melhores dias, é um feito. Não abordo o tema da Imprensa, porque, a esse nível, a crise ganhou já raízes profundas, como as tiragens e as vendas em papel demonstram. Foram mirrando e mirrando até deixarem as empresas em estado comatoso.

Num enquadramento destes é evidente que os sistemas de segurança social, aqui ou em qualquer parte do mundo, ficam debaixo de enorme pressão. O superávit que a Segurança Social portuguesa tem só foi conseguido à conta das contribuições de mais de um milhão de imigrantes que o País acolheu e está longe de colmatar o buraco da Caixa Geral de Aposentações. A nossa economia tem fragilidades estruturais que dificilmente se ultrapassarão e que reclamam de quem governa, ou de quem aspira a ser governo, visões realistas e que se centrem no efectivo interesse das pessoas, à luz do País que existe e não de um planeta imaginado. Assisti, nos últimos dias, a debates sobre a segurança social em que a ideologia se sobrepõe à realidade. Até ouvi Francisco Louçã tentar, obviamente sem sucesso, sacudir o mofo do velho e decrépito discurso que coloca o funcionário público como o coitadinho, que foi “roubado” pelo Estado, na Caixa Geral de Aposentações. Também me deparei com os cartazes do Chega que, como sempre, tirando do bolso soluções mágicas, consegue aquilo que mais ninguém, em sítio nenhum, logra alcançar: a redução da idade da reforma. O segredo está no combate à corrupção! Fácil! Nunca ninguém se lembrou disso ! Os portugueses merecem muito mais. Acima de tudo, merecem respeito e que não façam troça da sua inteligência. A demagogia tem limites de validade, até para os mais incautos e, porventura, indefesos, como é, frequentemente, o caso dos mais avançados na idade.

Não há, no mundo, uniformidade nos sistemas que garantem as pensões. Mais públicos e mais privados ou mistos, mais agarrados ao Estado ou mais dependentes de responsabilidade individual, são múltiplos os modelos que se observam. Os exemplos abundam e permitem tirar conclusões sobre o que se revela mais ajustado a um País como o nosso. Acautelar o futuro é traçar planos com base em análises fundamentadas e disponibilidade para abertura a consensos, coisa que tarda em acontecer, como ainda recentemente se viu, a propósito do código laboral. Não há virgens sentadas à mesa, independentemente do ar angelical que cada um queira afivelar. Para andar em frente Portugal precisa disso, até para se evitar os ziguezagues que marcam, ao longo do tempo, muitas das decisões a que vamos assistindo. A mais surpreendente e ainda insuficientemente explicada é a do regresso do Estado ao capital da REN, privatizada na era da troika. Vendeu-se barato e, agora, compra-se caro. O negócio suscita interrogações, a maior das quais reside em saber se o Estado não tem forma de intervir na definição ou controlo dos preços da electricidade a não ser permitindo-se um investimento de muitos milhões dos nossos impostos para se sentar no Conselho de Administração da empresa, que já foi do dominio público. Incapacidade, incompetência, facilitismo ou demissão ? Onde mora a coerência ? Para que servem as entidades de regulação ? Responda quem deve…

PS: 1) Para um país de brandos costumes, há demasiadas cenas de crimes violentos a acontecerem em Portugal. Tiroteios e assassínios são noticiados com uma frequência a que não estávamos habituados. Que se passa ? São máfias do Oriente, do Leste europeu e da América do Sul em acção ? São traficantes ? Que está a acontecer ?

2) Já vamos com, praticamente, seis meses de conflito EUA/Irão, mas não se lhe vislumbra um fim. Donald Trump montou a si mesmo uma armadilha e arrastou a América para uma guerra que fragiliza a sua imagem de potência invencível. David bate o pé a Golias e, ao mesmo tempo, mantém o mundo mergulhado numa crise tão inesperada como desnecessária.

3) A nova época futebolística está aí. Tenho dificuldade em conseguir entender como se constrói uma identidade forte em cada clube, com a inconstância em que vivem os plantéis. Tanto nas equipas grandes como nas pequenas, abundam as trocas e baldrocas e as entradas e saídas de jogadores. Esgrimem-se milhões como se fossem tostões.

Ainda se pode falar de futebol português, quando a presença de estrangeiros, em muitas situações , suplanta, em número, a dos nacionais?