A charlatanice que percorre a política portuguesa atingiu o seu expoente máximo esta semana. André Ventura, doutorado no ofício de prestidigitador, insistiu na ideia de que é possível fazer a quadratura do círculo. É legítimo que alguém queira sentar-se na cadeira do Poder. Revela-se, no entanto, condenável que o caminho para se lá chegar seja alcatroado a mentiras e ilusões. O líder do Chega vende tudo e mais alguma coisa, com o ar de pregador evangélico com que reveste as suas intervenções, sobretudo, quando por perto estão jornalistas, com microfones e câmaras de Televisão. Não interessa a viabilidade ou exequibilidade do que se promete. O importante é anunciar, anunciar e anunciar, carregando sempre nas mesmas teclas até que as pessoas se convençam de que há harmonia e beleza nas notas que saem de um piano arranhado sem piedade. As suas promessas de reduzir a idade da reforma, com o comboio de argumentos que as acompanham, só não são risíveis, porque o assunto é demasiado sério e há muito incauto em cada esquina.
O mundo está ameaçado pela intolerância, pelos extremismos e pela guerra. Não existe ninguém que não se interrogue sobre o dia de amanhã, à luz de uma realidade que se transforma todos os dias, pressionada pela insegurança (a praticamente todos os níveis) e pelo imparável avanço da tecnologia, que coloca em causa padrões tradicionais de produção. A sustentabilidade do emprego é questão que se situa no primeiro plano das preocupações de qualquer cidadão, a par da capacidade do Estado para financiar a Segurança Social e o nosso Sistema de Saúde.
Num país tão envelhecido como o nosso, conforme rezam as estatísticas, o contingente de reformados e dependentes cresce. Não diminui. Em consequência, os encargos para o Estado evidenciam-se como cada vez maiores, sendo que uma economia tão frágil como a portuguesa não tem capacidade para aguentar o que aí vem. O remédio dos Governos perante as insuficiências óbvias é sempre o mesmo: assaltar o bolso dos contribuintes, tornando ainda mais pesados os impostos, diretos e indiretos, que têm de suportar.
É, portanto, completamente contra a corrente que as promessas de André Ventura surgem.
Prometer baixar a idade da reforma assemelha-se ao discurso dos treinadores de bancada que se juntam num programa de TV e que são melhores do que qualquer Guardiola, Jürgen Klopp ou Mourinho. Todos sabem tudo sobre futebol e têm soluções na manga, menos aqueles que são os legítimos protagonistas do jogo. Diferentemente da política, porém, no futebol real, não naquele que se discute à volta de uma mesa, o resultado conhece-se logo. Não há como disfarçar a incompetência ou as insuficiências, com tempestades de palavras que o vento desfaz num instante, sem piedade. Ou se ganha, porque se marcou golos, ou não se ganha, porque não se soube acertar com a baliza. Simples assim.
No caso das promessas do líder do Chega não é muito diferente. A sua passagem pela cadeira de comentador desportivo deve tê-lo inoculado com a sapiência que mais ninguém acumulou. Como demonstrou, em intervenção no Jornal Nacional, da TVI, o jornalista Pedro Santos Guerreiro, a tendência dos sistemas de segurança social dos diversos países apontados por Ventura como exemplos não é totalmente verdadeira. A idade da reforma tende a aumentar, acompanhando a esperança média de vida, e, quando há um limite fixado para o valor das pensões, existem sistemas complementares aos das prestações públicas, cujo pagamento o cidadão é, na maioria dos casos, obrigado a suportar, investindo em seguros privados. A fragilidade da argumentação de Ventura fica ainda mais visível quando, questionado, responde que à fixação de um limite para as pensões liquidas um pouco acima dos quatro mil euros não corresponderia a diminuição das contribuições respetivas. Plafona-se, por um lado, mas continua a explorar-se o contribuinte, por outro. Fica claro o sentido de justiça do Chega.
Enfim, o modelo não consegue resistir a uma discussão séria, mas a forma como é apresentado deveria levar PSD e PS, nomeadamente, a questionarem-se sobre o que andam a fazer. O Chega cresce à boleia deles e do exército de descontentes que a incapacidade de gerar alternativas às práticas de governação que marcam o País, ao longo de décadas, foi gerando. Se nada se alterar, se sociais-democratas e socialistas continuarem a insistir num discurso repetitivo e pouco menos do do que vazio e a espreitar por cima do ombro, com medo da própria sombra, estarão a adubar a terra onde o Chega se alimenta. Serão eles próprios a encaminhar André Ventura para a cadeira que ambiciona.
NOTAS:
1. A marcação de greves à beira do fim de semana ou junto a feriados, para proporcionar aproveitamento de vários dias de lazer, roça a imoralidade. Não é desta forma que se mede a verdadeira força da luta dos trabalhadores. Os Sindicatos insistem em não querer perceber que a sua fragilidade se torna mais flagrante. Sem engodo, provavelmente a capacidade de provocar algum dano no funcionamento das empresas esbater-se-ia ainda mais.
2. Os números que chegam da circulação de jornais no Brasil são preocupantes. Os dois maiores jornais brasileiros, ambos de São Paulo, cidade com mais de 14 milhões de habitantes, não chegam a vender 60 mil exemplares diários cada. Se num país com quase 300 milhões de pessoas é assim, não é difícil imaginar quão difícil é a vida da Imprensa portuguesa. São sinais de uma erosão que vem sendo sentida há anos e que devem constituir alerta para todos os meios tradicionais.
3. O Mundial de futebol começa para a semana. Será o último para Cristiano Ronaldo e, provavelmente, também para o selecionador Roberto Martínez. Como sempre, as expectativas para Portugal são enormes, dada a qualidade dos nossos jogadores. Se a vaidade e o auto convencimento não imperarem, talvez aconteçam coisas bonitas. É acreditar. Uma vez mais!