E m Portugal, apregoa-se muito o desenvolvimento e o progresso, mas basta dar um saltinho a Espanha, a qualquer cidade de dimensão média, e percebe-se imediatamente o fosso entre o que se promete e o que se faz. As marcas do imobilismo português são cada vez mais visíveis. O que se passa com o aeroporto de Lisboa não é só lastimável. É desleixo e incompetência. Trata-se da plataforma de saídas e entradas que mais movimento gera no País. Rebenta pelas costuras. Toda a gente sabe. Já houve debates e mais debates sobre o que fazer, análises e mais análises, estudos sobre estudos e ainda mais estudos. A verdade é que continuamos no ponto zero, a ouvir anúncios bombásticos e desculpas rasteiras.
As discussões e projetos sobre o novo aeroporto da capital amontoam-se, sem que saiamos do mesmo sítio.
Prefiro soluções práticas que garantam funcionalidades adequadas do que obras megalómanas. A Portela mais um, complementar, sempre me pareceu uma questão de bom senso. Do ponto de vista financeiro, ajustada às reais capacidades nacionais. Numa perspetiva operacional, capaz de resolver problemas de curto e médio prazo, descongestionando tráfego, preservando conforto mínimo aos utilizadores, até se perceber as implicações de uma infraestrutura completamente nova e a exigir investimentos avultadíssimos.
Os desígnios da política e dos seus agentes nem sempre se compaginam com o que o bom senso recomenda. Continua-se a pensar, por estas bandas, que os portugueses adoram projetos megalómanos, em vez do conforto, comodidade e rapidez que modelos práticos e ajustados a tempos novos lhes possam trazer.
Nem os mais velhos, hoje em dia, são tolerantes com a ineficácia e com iniciativas que, em última análise, acabam no reforço da pressão que o Estado, sempre insaciável, exerce sobre o seu bolso.
A paciência das pessoas tende a esgotar-se a cada Governo que passa e a cada eleição que se realiza, perante a tolerância com a ineficiência, com a inconsequência e com o adiamento sistemático de decisões, sob os pretextos mais variados.
O desinteresse dos mais jovens pela política e as alterações que o seu sentido de voto tem conhecido, em cada eleição, são diretamente proporcionais ao descrédito que os agentes políticos vão sofrendo, enclausurados que estão nos círculos onde julgam residir o poder, em resultado do desgaste que o divórcio das palavras, por um lado, e da ação, por outro, provoca. Nesse sentido, a política nacional move-se num circuito fechado e autofágico, no qual não se vislumbra qualquer grande abertura à esperança. Nesse contexto, a indiferença e o desencanto tendem a prosperar, com as consequências inevitáveis na forma como os cidadãos percecionam o trabalho daqueles a quem entregaram o seu voto. Os ciclos cada vez mais curtos de governação são apenas um sinal. Eventos como o das buscas a sedes do Partido Socialista (independentemente de quem é visado), desencadeada ontem, só contribuem para desacreditar a nossa democracia, lançando a desconfiança sobre deputados, autarcas e governantes.
O aeroporto de Lisboa é símbolo da inércia de um país que passa mais tempo a fazer diagnósticos do que a resolver problemas e o caos que, no controlo de estrangeiros, reina em torno de todos os aeroportos nacionais, a demonstração da irresponsabilidade e da cultura do deixar andar. Com a época áurea do turismo à porta grita-se ‘Aqui D’El Rei’, como se ninguém tivesse culpa de nada. É o costume.
Para um jovem em busca de futuro, aterrar num qualquer aeroporto europeu é ter um choque de realidade. A Portela representa o mundo velho e estagnado, que ele não quer. É a imagem que não ambiciona para a sua vida. Assim, não admira que o talento emigre.
NOTAS SOLTAS:
1. Curioso para ver como António José Seguro e Luís Montenegro vão conseguir coabitar. Os primeiros sinais que chegam de Belém é que o Presidente quer ter voz. Paz podre é o que se avizinha.
2. Pedro Passos Coelho não cede. Há um espírito messiânico que parece já afivelado. Está indubitavelmente à espreita da oportunidade. Suspeito que nem ele próprio sabe bem qual. Para já, ergue a voz, sem travão. Contra o que existe. Impaciência é o mote. Falta de paciência também parece ser o que o move.
3. Parabéns ao Torreense. David bateu Golias. De Torres Vedras veio a demonstração de que ser pequeno não constitui condenação. Tal como os homens, os países não se medem aos palmos.