Donald Trump conseguiu transformar as suas promessas de prosperidade em incerteza e dor. O Médio Oriente a ferro e fogo e a escalada dos preços do petróleo fazem com que se adensem as preocupações que, por estes dias, vão marcando a vida das pessoas. Errático nas decisões, inconstante nas vontades, irrealista na sua visão do Mundo e chantagista tanto com os seus aliados como com os adversários, o presidente norte-americano e o seu séquito de servidores acéfalos desarticulam qualquer vislumbre de ordem, justiça e respeito suscetível de trazer equilíbrio às relações internacionais.
Esgotam-se as palavras para qualificar as atitudes de Trump e o egoísmo doentio que o impele a fazer tábua rasa de valores e compromissos. Não quero nem vou ser caixa de ressonância de críticas nas quais tropeço a cada leitura, só porque sim. É-me, no entanto, impossível passar ao lado da destruição, que a ausência de humanidade e a perspetiva narcísica de que se alimenta estão a trazer a milhões de seres humanos.
A economia mundial está a ser varrida por um terramoto originado num indivíduo cuja dimensão humana se extraviou.
Talvez por ter nascido nos Açores, cresci num ambiente em que a visão atlantista enformava a minha perceção do Mundo e me empurrava para o abraço à cultura americana, os seus valores e a sua literatura. Longe de mim alguma vez pensar que assistiria à insensatez que hoje grassa em largos setores dos Estados Unidos. Eventualmente, o bom senso prevalecerá. As eleições intercalares de novembro serão um momento chave para o povo americano tentar colocar uma trela no desvario. No curto prazo, ninguém tem esperança de conseguir por um travão na desenfreada corrida para a legitimação de discursos e práticas que nenhum ditador desdenharia. A alteração da balança dos equilíbrios no congresso talvez abra portas à esperança.
Até lá, vamos ter de suportar a voz da irracionalidade e o poder arrasador das bombas, num frenesim que torna difícil a vida a milhões de pessoas. Nenhum país, nem o do próprio Trump, escapa aos impactos das suas decisões.
Em Portugal, os efeitos são óbvios. Os preços dos combustíveis estão em aceleração constante e repercutem-se em tudo: do pão à carne, da fruta ao peixe, das rendas de casa aos juros dos empréstimos, da habitação aos outros todos. Nada a fazer, num país tão dependente como o nosso. As medidas de apaziguamento das repercussões que o Governo vai decidindo são gotas de água num oceano de problemas.
Discutir a relevância de José Luís Carneiro à frente do PS e os seus méritos – ou ausência deles – para relançar os socialistas ou insistir no empolamento da força do Chega e de André Ventura, no atual contexto politico, acaba por constituir matéria iminentemente distrativa. Melhor seria ter gente a procurar soluções concretas para problemas bem reais do que perder, nesta fase, tempo a analisar as intenções de Pedro Passos Coelho ou dos faquires do PS. Nem tudo é propaganda, nem jogo de bastidor.
Dir-se-á que é o que temos. Mas é pouco. Manifestamente pouco, quando se tenta imaginar o que será deste País que deixamos aos filhos e aos netos.
A tradição dos folares de Páscoa está a perder-se. A do cabrito assado à mesa pascal ainda não, mas, a avaliar pela desertificação dos campos, para lá caminha.
Mantém-se a das amêndoas. Essa, no entanto, não é só nossa e assimila os ditames dos megafones dos mercados e do marketing. Sinais dos tempos…