quinta-feira, 10 set. 2026

Aguente-se !

É óbvio que o que se passa com o ministro da Administração Interna não deveria estar a acontecer. As averiguações cruzadas de que é alvo Luís Neves (que sempre considerei um homem competente) se enfraquecem a sua autoridade, debilitam, sobretudo, o Governo e o primeiro-ministro.

Não encontro razões para qualquer pessoa, no seu perfeito juízo, se candidatar, hoje em dia, a um cargo público. Já o afirmei, várias vezes.

Tenho dificuldade em compreender que o apelo para servir o País e os seus cidadãos seja suficientemente motivador para qualquer alma decente se dispor a enfrentar a quantidade de problemas e chatices que a aguarda, mal ponha o pé na rua, após a tomada de posse.

Os salários, de políticos e gestores, para não invocar mais nenhuma função, estão longe de ser atrativos. A burocracia do Estado encolhe qualquer vontade transformadora ou ímpeto reformador. O espartilho do aparelho estatal, reforçado pela sua acrítica estrutura fiscalizadora, esmaga o mais bem intencionado espírito de iniciativa. A comunicação social, em compita com as redes sociais, tende frequentemente a disparar antes de se certificar que as munições que comprou não são de pólvora seca.

Está instalado um clima de suspeição generalizada, que alimenta a falta de confiança nas instituições e e que corrói a democracia e os seus alicerces. Qualquer indivíduo desafiado a servir o Estado tem de revisitar toda a sua vida desde o berço, para se certificar de que o seu curriculum se insere no perfil de sociedade assética que a demagogia dos extremismos aparenta querer construir. O resultado de tudo isto é que temos cada vez mais mediocridade na vida pública, menos competência na governação e pior gestão nas empresas.

O Verão tem sido pródigo em casos que contribuem para este sentimento de desagregação e descrença que, progressivamente, se instala. A imprudência de quem assume funções públicas sem se certificar do que fez, do que tem e da forma como obteve o que tem é difícil de perceber, perante a obrigatoriedade de transparência que deve sempre existir e, sobretudo, perante as dinâmicas comunicacionais e as lógicas que hoje dominam o combate político. A tentativa de tapar o sol com a peneira, recorrendo a explicações inconsistentes, que mal resistem a investigações subsequentes, só agrava as debilidades.

É óbvio que o que se passa com o ministro da Administração Interna não deveria estar a acontecer. As averiguações cruzadas de que é alvo Luís Neves (que sempre considerei um homem competente) se enfraquecem a sua autoridade, debilitam, sobretudo, o Governo e o primeiro-ministro. Tentar transformar o assunto apenas num problema de comunicação é um erro desastroso. Já não consigo ouvir a lengalenga das deficiências comunicacionais deste Executivo. Ainda ninguém percebeu que a eficiência da comunicação de qualquer Governo assenta apenas na sua competência? Se o seu trabalho for bom e reconhecido pelos eleitores não há falta de jeito na forma de dialogar com os jornalistas ou de lidar com as redes sociais que o afete! Acho que é tempo de se arrepiar caminho e de se encarar os problemas da forma que eles exigem, isto é, resolvendo-os. O País tem dificuldades estruturais de sobra para se dar ao luxo de desperdiçar energias e recursos em mais adiamentos, à boleia de casos e casinhos em que se tropeça a cada esquina.

Os portugueses deram ao PSD uma maioria. Uma maioria mínima, mas suficiente para ser governo. Luís Montenegro definiu uma estratégia. Sendo coerente ou não com ela, agora o que tem a fazer é governar. Nada mais. Tomando decisões por consenso ou na base do risco de avançar sozinho, podendo ou não ser bloqueado pelos partidos da oposição. Cada um tem um papel a desempenhar. Ele precisa cumprir o seu. Sem se preocupar com a propaganda ou com parvoíces como a de cair na tentação de dizer que não ia de férias. Candidatou-se ao mais alto cargo executivo do País. Sabia ao que ia. Agora aguente-se!

P.S. - À boleia do que disse acima, o caso dos subsídios pagos na RTP, ao longo de anos, e agora objeto de censura por parte da Inspeção-Geral de Finanças, é esclarecedor quanto à hipocrisia que reina na vida pública. Não acredito que os sucessivos Governos ignorassem a forma como aquela empresa remunera algumas das suas principais figuras. É mais uma situação em que as aparências servem para disfarçar problemas de fundo. Num ambiente tão competitivo como é o do mercado televisivo seria estranho que, para fixar os seus quadros mais relevantes, a RTP não lhes concedesse ‘incentivos’. A questão essencial aqui é que ninguém, até hoje, teve coragem de encarar o problema do serviço público de televisão com frontalidade. Para que serve a RTP? Ainda se justifica um serviço público de televisão como o conhecemos, à moda dos anos cinquenta? A existir, será que ele é adequadamente executado por uma empresa - pública ou não -, tendo em conta a pulverização da oferta ocorrida, entretanto? São apenas três, entre muitas perguntas cuja simples formulação incomoda quem é Poder. Quando dá jeito critica-se, quando não é conveniente ignora-se ou encomendam-se estudos que, uma vez prontos, vão para o fundo da gaveta. É um dossier que queima e, por isso, empurra-se com a barriga. Um dia, de tanto inchar, rebenta. Pelo caminho estouram-se milhões, destrói-se credibilidade, enterram-se administradores. Para quem nasceu para a Televisão na RTP é uma dor de alma.