quarta-feira, 09 set. 2026

Adeus tranquilidade

Portugal sempre foi tido como um País seguro. Vários acontecimentos, nas últimas semanas, revelam-se inquietantes e perturbam seriamente essa imagem.

Alguém me dizia, esta semana, que Lisboa está perigosa. Sendo mulher, redobrou os seus cuidados quando sai à rua, não só não exibindo fios de ouro, relógios ou joias, mas também evitando, à noite, locais mal iluminados. Dir-se-ia que se trata de um caso isolado. O problema é que não é assim. Lisboa parece ter importado cenas habituais nas principais cidades do Brasil, mas que estavam afastadas da realidade portuguesa. Os roubos por esticão, com recurso a motas, estão a crescer de forma alarmante e os assaltos com aparato de filmes de ação de Hollywood parece terem chegado para ficar.

O que se passou, esta semana, com o incidente em que quatro assaltantes, em duas motas, concertadamente, apertaram um carro e roubaram relógios de luxo e joias aos ocupantes, com o condutor do carro a reagir, perseguindo-os, numa ação que culminou com a morte de um dos assaltantes, é paradigmático.

Este vai ser um assunto que muita tinta irá fazer correr ainda, nos próximos tempos, sobretudo, quando se discutir, em tribunal, a reação do condutor do carro, que fez aquilo que, provavelmente, a esmagadora maioria dos portugueses seria tentada a fazer, em circunstâncias idênticas. Perante uma situação destas, com roubo concretizado e arma de fogo exibida, até onde pode o normal cidadão reagir? Limita-se a assistir, grita pela Polícia ou toma a iniciativa de ir tentar recuperar o que é seu, imprudentemente ou não, atingindo, no processo, o autor ou autores do crime? Ação legítima ou ato criminoso? A vítima, que teve uma arma apontada a ele e à mulher, vai ser acusada, corre o risco de um juiz a condenar e terá, no mínimo, de gastar muito dinheiro na contratação de quem a defenda. Obviamente, ninguém está legitimado a empreender justiça por suas próprias mãos, mas o que se passou espelha a ideia de impunidade que foi ganhando raízes e reflete a insegurança que, por muito que as autoridades se esforcem por contrariar, já se instalou como perceção geral. A reação do assaltado traduz a raiva perante a sensação de que o cidadão está desprotegido face à falta de policiamento nas ruas e dependente de si mesmo quando se trata de proteger o que é seu. É exatamente deste tipo de coisas que se alimenta a demagogia que engorda o discurso dos políticos extremistas, que vão conquistando terreno no País. Ocasiões como esta são pretextos caídos do céu para, por exemplo, o Chega. Como diz o outro, ‘depois não se queixem…’

Coincidentemente, o presidente da Câmara Municipal de Lisboa resolveu lembrar que já exigiu ao Governo o reforço de duzentos agentes da polícia para a cidade. Fê-lo com aparente veemência, pois sublinhou que se limita a querer cobrar uma promessa do Executivo de Montenegro. Carlos Moedas falou para as Televisões e para quem o quis ouvir, mas não conseguiu disfarçar o desconforto por poder estar a embaraçar o Governo liderado pelo partido a que pertence e a quem, enquanto militante destacado, compete manifestar solidariedade à ação governativa, ainda para mais num momento em que há ministros debaixo de fogo cerrado. Moedas preocupou-se em aguentar-se no fio da navalha, num esforço de equilibrismo demonstrativo de quão frágeis são as relações do poder autárquico com o poder central. Reivindicou q.b. o pagamento de uma promessa ao mesmo tempo que amenizava respeitosamente o tom do protesto, confessando-se confiante na palavra do Governo para honrar compromissos. A independência subserviente…

Sempre encarei o exercício de funções autárquicas como uma das missões mais nobres, mas também mais difíceis para quem envereda pela vida política. É quem verdadeiramente lida de forma mais próxima com as populações e quem é avaliado de forma direta pelo seu trabalho ou inação, competência ou desleixo, humanidade ou desprezo. Estar à frente de um município é optar. Ou se está com as populações ou com o partido pelo qual se foi eleito. É um cargo que põe a nu a força de caráter de quem o ocupa. Há os que ficam para a História e há os outros, aqueles a quem a memória atira para o caixote do lixo.

Portugal sempre foi tido como um País seguro. Vários acontecimentos, nas últimas semanas, revelam-se inquietantes e perturbam seriamente essa imagem. Estamos na rota dos grandes traficantes de droga, com tudo aquilo que, infelizmente se lhe encontra associado, e que ameaça, se não for atalhado a tempo, transformar esta terra de gente de paz num grande estúdio para cinema de ação com base em factos reais.

Há vários problemas que os portugueses ambicionam ver resolvidos e que já se converteram em debilidades crónicas, em diversas áreas, como a Saúde, a Habitação e o Ensino. Deixar que a questão da Segurança se transforme em mais um polo de angústia é conseguir a proeza de tornar a vida de todos ainda mais pesada. Nem tudo se prende com dinheiro, embora a falta dele não contribua para sarar as feridas. A verdade, porém, é que, com a carga de impostos que pagamos, temos direito a reclamar e a exigir ao Estado, no mínimo, que dê ao crime o combate adequado e proteja os seus cidadãos, evitando que estes se vejam tentados, até mesmo instintivamente, a tomar nas suas mãos não só a defesa das suas vidas e dos seus bens, mas o exercício da justiça perante a impunidade, Com riscos para a sua integridade física e até com consequências para a sua liberdade. Não nos podemos acomodar perante cenas como as desta semana, ou como a que envolveu uma turista nórdica atingida, ainda há pouco tempo, na baixa lisboeta, por uma bala perdida. Nem perante os momentos de terror que cada vez mais ourives têm de enfrentar. É demais!

P.S. - 1. A Meta vai pagar mais de 14 mil milhões de euros para não ir a julgamento no caso que envolve a queixa de 29 estados americanos contra a empresa, acusada de ter montado as suas plataformas de modo a criar dependência em crianças e adolescentes. Redes sociais sem controlo são uma das maiores ameaças no mundo de hoje e é tempo de ação internacional concertada para colocar travão na impunidade de que vêm gozando.

2. O caos nas urgências dos hospitais está a atingir proporções inimagináveis. Horas e horas de espera para primeiro atendimento não é situação digna de um país que se quer considerar do primeiro mundo. Montenegro foi eleito prometendo mudanças substanciais no panorama da Saúde. As soluções anunciadas tardam.

3. Marco Silva diz que ainda não tem equipa de sonho, no Benfica. Quantos milhões a mais serão necessários para que tal aconteça? O futebol português vive em vertigem constante. Os três grandes parece estarem a jogar ao Monopólio…