O Mundo é um lugar perigoso.
Ando, há muitos anos, a lidar com notícias e nunca esperei ver o Rambo saltar das telas do cinema directamente para a realidade. Falha minha, seguramente. Eu deveria ter previsto que um Presidente dos Estados Unidos seria capaz de se tornar, em pleno século 21, ao mesmo tempo, autor, produtor e realizador de filmes de guerra.
A partir da sua sala de comando. Donald Trump decidiu atacar a Venezuela e raptar o seu Chefe de Estado, numa operação arriscada, mas exaltante para o espírito bélico americano. A minha estupefacção foi grande, pois cresci e tornei-me homem num ambiente de paz que políticos de mão cheia conseguiram criar, no pós-guerra. Foi esse clima que, durante dezenas de anos, favoreceu o desenvolvimento económico e o estabelecimento de regras de conduta que permitiram relações de civismo, convivência e até de cooperação entre países. Trump resolveu que o Mundo é um quintal seu e, sem pestanejar, determinou que o direito internacional só serve para atrapalhar.
O ataque a Caracas, que ordenou, ė inaceitável, a qualquer luz, mesmo que não se nutra, como é o meu caso, nenhuma simpatia por Maduro, agora encerrado numa prisão de Nova Iorque. O ditador venezuelano é um ser detestável, como se sabe, que manipulou eleições para se manter no Poder e governou a Venezuela com mão de ferro. Há muito que deveria ter acolhido a voz do seu povo e saído de cena. Como todos os ditadores, achou que o Poder era sua propriedade e que, com o resguardo e cumplicidade dos seus generais, ninguém se atreveria a depô-lo. O seu reinado acabou no fim de semana, por acção do Presidente dos Estados Unidos, a pretexto de um conjunto de argumentos que me dispenso de invocar.
O Mundo acordou, entre o surpreso e o sobressaltado. Surpreso pela ousadia de uma operação militar, que fez renascer o orgulho dos americanos nas suas forças armadas, e sobressaltado perante a demonstração de que Donald Trump é um homem sem controlo e que não existem limites à sua ambição, nem à sua vontade. Invocar o interesse americano é justificação suficiente para o recurso à força, sobretudo, quando se verifica uma premissa de fundo: o adversário ser fraco.
Gostaria de o ter visto agir, com a mesma determinação e, pelo menos, um terço da energia, noutras situações. Como na Ucrânia, por exemplo. Coitado do povo de Taiwan, se, um dia, proximamente, a China resolver apoderar-se da ilha. A sua defesa dissipar-se-á, num fósforo, ancorada que se encontra no cemitério das promessas e compromissos que Trump tão bem sabe enterrar.
Passámos da estabilidade à inquietação, em pouquíssimo tempo. Os Estados Unidos são, hoje, um foco de instabilidade mundial. Hostiliza parceiros, apreende o que não é seu, decreta taxas, reclama territórios. O que se passa com a Groenlândia é surreal. Donald Trump abriu uma zona de conflito com a Dinamarca e, consequentemente, com a União Europeia, reclamando a posse da região autónoma dinamarquesa. Veremos que outras reivindicações se seguem. Se dúvidas houvesse, elas aí estão, desfeitas: o Presidente americano não tem respeito pela Europa nem pelos seus representantes e tudo fará para a tornar ainda mais frágil. Já se passou do jogo de poker e do recurso ao bluff para uma linha de confrontação, indisfarçável. As alianças, na nova realidade desenhada pelo presidente americano, são obstáculos aos seus desígnios.
Trump refez a balança dos equilíbrios mundiais e assina por baixo um novo mapa, em que Estados Unidos, China e Rússia são as potências prevalecentes. Putin agradece, seguramente. Embrulhada no conflito ucraniano e com uma economia de pantanas, a Federação Russa agarrará a mão que a ajuda, prestando-se ao papel que lhe cabe, nomeadamente, no enfraquecimento da Europa.
É com apreensão e pena que observo tudo isto. Habituei-me, como a generalidade dos que me lêem, a ter os Estados Unidos da América como a grande referência do mundo ocidental: económica, tecnológica e até cultural. Uma terra de progresso e bem estar, com uma democracia pujante. É, sem dúvida, impressionante como um só homem acumula tanto poder e tem capacidade para provocar um terramoto da dimensão que, quer interna quer externamente, está a ocorrer.
O Mundo está instável. Pior do que isso, está perigoso. Há um Rambo à solta e não é de ficção!