quinta-feira, 12 fev. 2026

Uma pequena coleção de marcadores

É por se prestarem tão bem a servir de arquivos, que encontramos, às vezes décadas depois, pequenas recordações no interior dos libros.

Ninguém duvida de que os livros são óptimas ‘gavetas’. Entre as suas páginas podemos guardarmos papelitos, flores secas e outras minudências. Especialmente se nunca mais quisermos encontrá-los. Lembro-me sempre de um amigo que tinha um selo muito valioso…

[uma pequena interrupção para pôr um CD a tocar. Tinha ligado o rádio para ouvir música, não para ser doutrinado]

… e que o guardou tão bem que até hoje o dito selo continua por materializar-se.

É precisamente por isso, por se prestarem tão bem a servir de arquivos, que encontramos, às vezes décadas depois, pequenas recordações no interior dos livros.

Já aqui falei em tempos de uma folha manuscrita com uma tradução de um poema numa caligrafia preciosa que encontrei no interior de um volume de Percy B. Shelley. E referi um pequeno relatório datilografado sobre a ‘Síndroma dos restaurantes chineses’ que estava justamente num livro sobre culinária chinesa. São aquilo a que poderíamos chamar ‘brindes’ – coisas sem grande valor, mas que em todo o caso constituem surpresas agradáveis para quem tem a sorte de as encontrar.

Em ambos esses casos os achados continuam dentro dos respetivos livros – seria insensato estar a separá-los – mas quando não existe uma relação tão próxima junto-os num montinho ao canto da secretária, na vizinhança de um pequeno globo lunar.

O montinho inclui também marcadores propriamente ditos – este tem um pormenor das amendoeiras em flor de Van Gogh; aquele uma imagem de lombadas de livros da Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra; outro uma foto de uma bela flor (um crisântemo?) pintada sobre porcelana; há um que foi uma oferta do Dia do Pai; e o último tem o formato de um abre-cartas, exibindo um boneco engraçado, tipo palhaço, que faz a promoção dos livros infantis da Majora.

Mas passemos agora aos outros ‘brindes’ achados dentro de livros.

[nova interrupção: com as movimentações na secretária, o globo lunar caiu ao chão com estrondo. O nosso satélite natural lá ficou com mais uma cratera]

Uma folha de calendário do dia 10 de novembro de 1953, uma terça-feira. Um menu da Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, de 9 de dezembro de 2014. Fala de cabidela e de ‘mimos de côco com cereja’. Um desenho a carvão de uma senhora vestida q.b. Tem nos lábios o que parece ser um cigarro e no interior do perímetro da nuvem de fumo surge um homem de contornos esbatidos, de capacete e espingarda com baioneta, sem dúvida um soldado. Um bilhete do comboio do Parque das Nações. Apontamentos vários. Um postal de uma casa tradicional da Bretanha. Um mini-bloco do luxuoso Hotel de Angleterre, em Genebra. Recortes de jornais, um dos quais com um artigo de Maria Lúcia Lepecki sobre o Memorial do Convento. Uma nota de mil liras, com o Palácio dos Doges numa das faces e o rosto de Marco Polo na outra. (Sim, há quem guarde dinheiro nos livros. Na margem lê-se em italiano: ‘A lei pune os fabricantes e traficantes de notas falsas’. Mas quem iria falsificar uma nota que já na altura não valia nada?) E por fim um adorável ratinho em feltro, com patas, cauda e orelhas cor de rosa, e bigodes e nariz preto. Segura um livro nas mãos e parece satisfeitíssimo. Por falar nisso, na próxima semana escreverei sobre duas histórias de ratos que encontrei um pouco por acaso, tal como estes itens, entre as páginas de livros.