Alguns anos depois, ele continuaria a rememorar vezes sem conta aquela tarde de final de verão em que ele e a sua amiga Micòl se haviam abrigado da chuva numa arrecadação da grande propriedade. Como que para procurar um lugar ainda mais acolhedor, tinham subido à cabine e ficado a conversar no interior do velho coche ali estacionado, que apesar de só ser usado duas ou três vezes por ano era ciosamente mantido pelo chauffeur da família.
Tudo começara com uma insólita carta metida na caixa de correio, onde se informava os membros de ascendência hebraica que estavam interditos, daí em diante, de frequentar o clube de ténis de Ferrara. Mais divertidos do que propriamente preocupados com a situação, os irmãos Alberto e Micòl Finzi-Contini tinham pegado no telefone e ligado a alguns amigos a convidá-los a usarem o seu campo de ténis privativo, dando assim início a uma salutar temporada de convívio e desporto. De repente, as infames leis raciais de finais dos anos 30 em Itália aproximavam aqueles que antes se haviam limitado a trocar uns quantos olhares, e pouco mais do que isso, na sinagoga ou na escola.
Resguardado pelos altos muros, o pequeno grupo de jovens sente-se a salvo das turbações que agitam então a Itália fascista e a Europa. Segue-se um verão animado e encantador. Às partidas de ténis juntam-se as conversas, os refrescos trazidos por uma criada, pontualmente até uma refeição partilhada com a ilustre família à mesa da sala de jantar da magna domus. Por vezes, enquanto os outros disputam uma partida, Micòl convoca o nosso protagonista para um passeio pelo vasto parque a que chamam Il Barchetto del Duca. Falam sobre a vida, a literatura (que ambos estudam e amam) e as árvores centenárias. É numa dessas excursões que acabam a conversar na cabina do velho coche estacionado na arrecadação.
Creio que todo o leitor do romance O Jardim dos Finzi-Contini – mesmo o leitor razoavelmente distraído – se dará conta de que a escrita de Giorgio Bassani está cheia de apartes, de pequenos desvios e orações intercaladas que manifestam as hesitações um tanto irritantes do narrador e protagonista. Quando o próprio se apercebe dessa contemporização, está irremediavelmente apaixonado pela bela Micòl; mas não será já tarde de mais?
O delicioso verão ficou para trás, sucedendo-lhe um outono melancólico e um inverno especialmente frio e desolador. Ele continua a frequentar a casa dos amigos, mas Micòl está ausente em Veneza, a terminar a sua licenciatura, e neva em Ferrara.
«Sepultado sob uma camada de neve com 40 centímetros de espessura, o Barchetto del Duca estendia-se perante mim como uma paisagem de gelo, de saga nórdica», leio na página 225 da minha edição. Não resisto a transcrever o original: «Sepolto sotto una coltre di neve di una quarantina di centimetri di spessore, tutto bianco, Il Barchetto del Duca mi appariva trasformato in un paesaggio da saga nórdica». Repare-se bem na palavra escolhida para o início da frase: «Sepultado». E aí damo-nos de que, terminado aquele verão, o jardim encantado dos Finzi-Contini se transformou, muito rapidamente, num cemitério a que só faltam as lápides.