segunda-feira, 17 ago. 2026

Sic transit gloria mundi

Recuemos ao ano de 1871. Depois da humilhante derrota frente ao exército da Prússia, a França vai a votos e elege um governo conservador, sediado em Versalhes, que negoceia com os prussianos os termos da rendição.

Se fosse possível estabelecer um epicentro do luxo e do requinte, talvez esse prémio recaísse sobre a Place Vendôme, em Paris. É aí que confluem as principais casas de joalharia; é aí que o sultão do Brunei tem a sua residência privada na capital francesa; e é aí que se situa o hotel Ritz, onde a princesa Diana e Dodi al-Fayed jantaram pela última vez, antes do trágico acidente na ponte de l’Alma.

Ao centro da praça ergue-se um dos marcos da cidade-luz, a famosa coluna mandada erigir por Napoleão em 1806, depois da batalha de Austerlitz, e modelada na coluna de Trajano.

Mas enquanto a sua ‘homóloga’ romana se mantém no lugar há mais de 1900 anos, a coluna Vendôme, já teve, digamos assim, altos e baixos. Recuemos ao ano de 1871. Depois da humilhante derrota frente ao exército da Prússia, a França vai a votos e elege um governo conservador, sediado em Versalhes, que negoceia com os prussianos os termos da rendição. Em Paris, uma fação de republicanos radicais não se conforma. Todas as dificuldades, toda a resistência, todo o sangue derramado tinham sido em vão. O desfile das tropas prussianas na capital é a gota de água. Os radicais de Paris acusam de traição o governo de Versalhes e, no meio de uma onda de tumultos, estabelecem um governo municipal autónomo a que chamam a ‘Comuna’.

À guerra contra a Prússia segue-se, como se não bastasse, uma guerra civil. E a cidade rapidamente se vê sujeita a um novo cerco.

Entre os entusiastas da Comuna encontra-se um artista, também ele radical, chamado Gustave Courbet (1819-1877), que fora nomeado comissário para a proteção do património e dos bens culturais durante o cerco dos prussianos.

«Courbet era socialista, mas também uma espécie de libertário. Não queria pertencer a nenhuma escola, instituição religiosa, academia ou regime, a não ser ao ‘regime da liberdade’», escreve Sebastian Smee em Paris in Ruins, o livro que trouxe comigo para estas férias. «Agitador nato, sabia que podia explorar o ressentimento generalizado contra os privilégios usados - e abusados - pelo regime imperial deposto».

Usando a sua notoriedade e influência, Courbet solicita a demolição da coluna Vendôme, por ser um monumento «destituído de qualquer valor artístico», que celebrava «conquistas e guerras» e, portanto, inimigo «da harmonia da fraternidade universal». Ainda para mais, desde 1863 a coluna estava coroada por uma estátua de Napoleão, ali colocada pelo seu sobrinho, Napoleão III.

Como é sabido, apesar das belas intenções dos insurretos, a Comuna acabaria numa carnificina, com atrocidades terríveis praticadas de parte a parte. Entre 20 e 30 mil revoltosos e seus simparizantes terão sido mortos. Um jornalista notou que, nos locais das execuções, não se via muito sangue, mas sobretudo miolos espalhados ao lado das vítimas, mortas com um tiro no ouvido...

Apesar da recusa inicial - até porque havia outras prioridades - a proposta de Courbet para demolir a coluna Vendôme acabou por ser levada avante. Foram precisas semanas para desmantelar o monumento; a tarefa seria concluída a 16 de maio de 1871.

Nem duas semanas tinham passado e já as tropas do governo de Versalhes recuperavam o controlo total de Paris. Acusado de ser o responsável pela demolição, Courbet foi condenado a prisão e a custear a reconstrução da coluna. Como não tinha o dinheiro necessário, exilou-se na Suíça, onde viria a morrer no último dia do ano de 1877.

Apenas uma nota final para o quanto este caso se assemelha a polémicas recentes. E ainda uma curiosidade: a coluna Vendôme, reconstruída em 1875 e ainda hoje no centro da praça com o mesmo nome, ergue-se no lugar antes ocupado por uma estátua equestre de Luís XIV, destruída durante a Revolução Francesa, em 1792. Sic transit gloria mundi.

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