terça-feira, 21 jul. 2026

Os sublinhadores implacáveis

Há sublinhados tão grossos que quase tapam as palavras, que estorvama leitura em vezde a facilitarem.

E cá ando eu outra vez, de borracha na mão, a maldizer os sublinhados e os sublinhadores de livros. Bastante irritado, chamo-lhes ‘sublinhadores implacáveis’ – por oposição aos ‘sublinhadores razoáveis’, que conhecem as virtudes da contenção – capazes de sublinhar páginas inteiras sem piedade nem remorso. E chego à conclusão de que a utilidade de todos estes riscos será extremamente limitada: em primeiro lugar, porque há sublinhados tão grossos que quase tapam as palavras, ou seja, estorvam a leitura em vez de a facilitarem; em segundo lugar, porque sublinhar páginas inteiras é quase o mesmo que não sublinhar nada… se está tudo em destaque, nada se destaca verdadeiramente.

A borracha, que era nova – e das boas –, já vai em metade. Doem-me as articulações do polegar e do indicador, de tanto apagar, e até já estou transpirado. A brincar, a brincar, ando nisto há mais de uma hora. A mesa vai abanando como um navio sacudido por uma tempestade.

São mais as páginas sublinhadas do que eu imaginava. Ao contrário de outros casos muito comuns, que sublinham freneticamente as primeiras páginas e depois perdem o gás muito rapidamente – desconfio até que nem leram o livro todo –, esta é uma sublinhadora teimosa, persistente, empenhada. Como leitora e como estudante, parece-me, é séria e esforçada, mas pouco criativa e algo burocrática. (Perdoem a divagação, mas enquanto cumpria a minha tarefa tive bastante tempo para pensar e deu-me para fazer,  a partir dos seus sublinhados, uma espécie de perfil académico da anterior proprietária do livro).

Apagar sublinhados é uma tarefa ingrata e frustrante. Há sempre marcas que permanecem no papel e, por vezes, até pequenos borrões que não há borracha que apague, lembrando-me que, em espanhol, ‘apagar’ se diz ‘borrar’. Além disso, é preciso segurar com firmeza a página que se está a limpar, não vá ela amachucar-se com os movimentos rápidos, para cá e para lá, da borracha. Por fim, convém ter à mão um pincel ou uma escova de cerdas macias, para afastar as aparas. E uma pá e vassoura, já agora, uma vez que a mesa e o chão também ficam cobertos com os despojos da tarefa.

É por estas e por outras que deixei de sublinhar os meus livros. Passei a transcrever as partes que mais me chamavam a atenção, o que dá uma trabalheira dos diabos e consome imenso tempo. São já centenas de quadradinhos de papel preenchidos numa letra apertada que se acumulam numa caixa de cartão para bolos, uma súmula dos melhores trechos dos livros que tenho lido.

Será uma perda de tempo e de esforço? Talvez. Mas, para me animar, lembro-me sempre dos pintores que se formaram copiando os quadros dos mestres, e do exemplo dado pelo Mahatma Gandhi: quando foi preciso formar uma nova geração de advogados numa zona da Índia onde não havia universidade nem nada que se parecesse, ele pô-los simplesmente a copiar processos, confiante de que assim aprenderiam os rudimentos do ofício. Por alguma razão não lhes disse para sublinharem os processos, mas sim para os copiarem. Pode ser que, tal como os discípulos de Gandhi, também eu vá aprendendo alguma coisa com os meus copianços.