segunda-feira, 09 fev. 2026

Os ratos na literatura

Também do foro patológico parece ter sido a relação de Marcel Proust com os pequenos roedores

Perseguidos e execrados pelos humanos na vida real, os ratos possuem ainda assim uma distinta linhagem na história da literatura, onde aparecem umas vezes como seres repulsivos e propagadores de doenças, outras vezes como personagens simpáticas. Esopo escreveu a fábula ‘O leão e o rato’ (tema de uma pintura de Peter Paul Rubens que existia em Chequers, a residência de férias do primeiro-ministro britânico, e que Churchill terá repintado porque o rato não estava suficientemente visível!), enquanto Jean de La Fontaine, o equivalente moderno (e francês) de Esopo, nos ofereceu ‘O rato do campo e o rato da cidade’.

Na Inglaterra do século XVII, eles surgem nas peças de Shakespeare e no Diário da Peste de Londres, de Defoe. Na Escócia do século XVIII, Robert Burns intitulou um poema ‘To a mouse’, no qual Steinbeck se inspiraria para o título do seu Ratos e Homens. No século XX temos o meigo ‘Ratty’ de O Vento nos Salgueiros e, inevitavelmente, A Ratazana, de Günter Grass, sem esquecer o caso do ‘Homem dos Ratos’ narrado por Sigmund Freud. Também do foro patológico parece ter sido a relação de Marcel Proust com os pequenos roedores. Conta-se que o escritor sentia um especial prazer em ver ratinhos vivos serem espetados com alfinetes. O estranho espetáculo excitava-o de uma maneira incomparável…

Exemplo talvez menos conhecido é o episódio ‘Ratos Pretos e Ratos Cinzentos’, incluído no clássico de Selma Lagerlöf A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson através da Suécia. Tudo começa com a descrição magistral de uma casa muito antiga e invulgar.

«No Sudeste da Escânia, não muito longe do mar, há uma antiga casa fortificada que se chama Glimminge. É um portentoso edifício de pedra visível a quilómetros de distância. Não tem mais de quatro andares de altura, mas é tão grande que uma quinta vulgar, situada na mesma propriedade, parece uma casinha de bonecas comparada com ele. A grande casa de pedra tem tetos e paredes tão grossos que, no seu interior, quase não há espaço para outra coisa. As escadas são estreitas, as entradas pequenas e as divisões escassas. Para que as paredes mantenham a sua força, os andares superiores têm o menor número possível de janelas, não existindo nenhuma nos pisos inferiores. Nas velhas épocas de guerra, as pessoas ficavam satisfeitíssimas por se poderem trancar num edifício grandioso e maciço como este, tal qual hoje em dia apreciamos enfiar-nos debaixo dos cobertores num inverno gelado. No entanto, chegada a paz, não lhes agradou continuar a viver nas divisões escuras e frias de pedra do antigo castelo. Abandonaram, há muito, a grande casa fortificada de Glimminge, e mudaram-se para residências onde a luz e o ar conseguem entrar».

Como a natureza tem horror ao vazio, com a saída dos humanos o casarão rapidamente é ocupado por animais vários. Uma estirpe outrora «numerosa e poderosa» de «ratos pretos velhos» instala-se na cave. «Durante muito tempo, os ratos pretos haviam sido donos e senhores da Escânia e de todo o país. Encontravam-se em todas as caves, em todos os sótãos, em celeiros e estábulos, em adegas e moinhos, em igrejas e castelos – em suma, em todas as edificações humanas. Todavia, tinham agora desaparecido de todos estes locais e enfrentavam o extermínio».

A velha fortaleza de pedra é o seu último reduto. Mas o inimigo – os agora todo-poderosos ratos cinzentos – encontra-se à porta e monta um cerco impiedoso. Como poderão os ratos pretos resistir perante este exército muito mais forte e numeroso?

Não contarei o desfecho, convido o leitor a descobri-lo por si. Limito-me a constatar que Selma Lagerlöf vai desencantar a solução noutro clássico da literatura sobre ratos. Obviamente refiro-me a O flautista de Hamelin, o conto tradicional alemão que nos chegou através da versão dos irmãos Grimm.