Estou a passear por Londres e trouxe na bagagem um livro de George Orwell. Embora se trate de uma edição de bolso muito prática e leve, deixei-o naturalmente a repousar na mesa de cabeceira do quarto de hotel. Mas lembro-me do autor ao passar por uma livraria. Não pelas razões mais óbvias. É que Orwell escreveu, noutro livro, um pequeno ensaio intitulado ‘A Lua sob as Águas’ em que discorre sobre um pub imaginário ideal e os méritos que o tornam tão apetecível. E a visão desta livraria incaracterística, que me desagrada de imediato, leva-me a pensar em quais os critérios que deveria cumprir a livraria perfeita.
«Quando nos interrogam sobre as nossas preferências em matéria de pubs, parece natural considerar a cerveja em primeiro lugar, mas o que mais me agrada no Lua sob as Águas é o que se costuma designar por ambiente», lemos na primeira página daquele ensaio. «Para começar, a arquitetura e o mobiliário são intransigentemente vitorianos. Não há mesas com tampo de vidro nem outras infelicidades modernas e também não há vigas de madeira falsas nem recantos de lareira, nem painéis de plástico mascarado de carvalho […] – tudo exala aquele conforto sólido e feio do século XIX».
Pedir mobiliário de madeira maciça seria talvez demasiado. Certas «infelicidades modernas» são também quase inevitáveis. Mas uma boa livraria deve sem dúvida ter um ambiente acolhedor, que transmita um certo lastro e respeitabilidade. Caso raro em mim, esta livraria com que me deparo numa grande artéria de Londres não me desperta sequer a vontade de entrar, embora tencione visitar uma congénere sua. Tudo soa em demasia a massificado e plastificado.
Outra característica que me dissuade, percebo de imediato, é a escala, a quantidade industrial. Fico horrorizado só de pensar nas 18 milhas de estantes da Strand em Nova Iorque, e aqui em Londres, nesta livraria que faz lembrar uma farmácia ou loja de cosmética como a Boots (ou a Wells em Portugal), a quantidade também me causa repulsa. Por dois motivos: 1.º esta imensidão de livros é por um lado esmagadora, faz-me sentir a minha pequenez e esfrega-me na cara como é insensata a minha ambição de conhecimento; 2.º sinto que, no meio de tantos livros, há certamente muitos que não interessam para nada, e isso retira-lhes toda a aura em que os amantes de bons livros ainda gostam de acreditar...
A livraria perfeita deve, portanto, ser acolhedora e ter uma dimensão que não faça o visitante sentir-se esmagado ou perdido.
No seu ensaio, Orwell fala também sobre as empregadas do bar – «conhecem a maioria dos clientes pelo nome e interessam-se pessoalmente por eles». Os funcionários, naturalmente, constituem uma parte decisiva de qualquer negócio, e uma boa livraria não foge à regra. Se forem daqueles simpáticos e que já fazem parte da mobília, ainda melhor. Mas nunca devem esquecer-se de dar ao cliente liberdade suficiente para ele fazer as suas divagações.
«A grande surpresa do A Lua sob as Águas é o jardim», continua o nosso autor. E esse é porventura o derradeiro critério decisivo que faz uma boa livraria: a capacidade de nos surpreender. Por exemplo, a possibilidade de tropeçarmos num livro cuja existência desconhecíamos mas que de um momento para o outro se torna vital, ou de encontrar uma raridade. Isso, obviamente, requer uma renovação periódica dos stocks, o que não deve ser confundido com a rotação vertiginosa de algumas livrarias atuais, onde um livro com mais de dois anos já passa por relíquia. Até porque essas sim, só têm mesmo os títulos previsíveis.