A primeira coisa que me chamou a atenção foi o objeto. Em particular, o belo tom de vermelho – quase de Pompeia, apenas um pouco mais escuro – e o toque aveludado da capa, que se poderia distinguir até na escuridão.
Pressenti que podia estar perante um livro especial, e alguns meses depois, ao virar a última página, verifiquei que essa impressão inicial era plenamente justificada.
Cadernos de Benares, de Ana Marchand, propõe uma combinação feliz – talvez devesse dizer ‘uma contaminação’ – de textos e imagens: fotografias antigas e atuais, desenhos, gravuras, guaches, imagens trabalhadas digitalmente. Algumas são mais ilustrativas, outras mais abstratas; mas todas captam e reforçam o mistério do lugar.
Às impressões da autora, juntam-se relatos de Xuanzang, um monge viajante chinês do século VII; de Maurizio Piscicelli, militar e viajante italiano; e de Elena de Orleães, duquesa de Aosta, irmã da nossa Rainha D. Amélia, nascida no mesmo ano que Piscicelli (1871) e que viajou na companhia deste até à Índia em 1913.
Cidade antiquíssima já quando Xuangzang a visitou no século VII, Benares (a minha avó paterna, que lá esteve, dizia Benarés) é a capital espiritual da Índia. Terá mais de dois mil templos e estende-se nas margens do Ganges, que às vezes transborda, inundando tudo em volta, incluindo os mais ricos palácios. À semelhança do que acontece com o Nilo no Egipto, o grande rio sagrado é a seiva que fecunda todo aquele território.
«O rio transbordava de corpos», escreve Ana Marchand. «Era um rio humano, o dos presentes e o dos ausentes, cujas cinzas repousavam nos substratos daquele rio. / Aquele rio era a Humanidade.»
A autora, que passou ali «várias temporadas ao longo de várias décadas», transmite bem a espécie de vertigem que toma conta de quem visita aquele lugar. É como se tudo se misturasse, o antigo e o atual, o sagrado e o profano, o puro e o impuro, o florescente e o decadente, baralhando as nossas referências.
É para o Ganges que os hindus deitam as cinzas dos seus mortos, mas é também nas suas águas que se banham para se purificarem, numa promiscuidade que nos confunde.
Piscicelli diz-nos que o ghat – uma escadaria cujos degraus descem em direção ao rio – mais sagrado de Benares fica junto à pira onde se incineram os mortos: «É aqui que as viúvas se lavam e purificam logo a seguir à morte do marido. Vêm envoltas em algodão branco que tiram quando já estou imersas. Quando saem voltam a enrolar-se nos panos molhados e o tecido desenha as ancas e os rins debruçados sobre a água, que sorvem na concha da mão para melhor se purificarem, ou com que lavam os dentes usando um graveto. A poucos passos dali muitas vezes flutuam restos mal carbonizados, mas isso não preocupa ninguém. A mãe Ganges não purifica tudo?».
Nascido nas alturas dos Himalaias, o Ganges começa por ser neve das encostas que derrete e se transforma em água cristalina. Ao longo do percurso vai incorporando os mais diferentes detritos, até se tornar quase viscoso. Elena d’Aosta fala das águas «turvas, amareladas, lodosas, eternamente cobertas de pétalas, de flores, de grinaldas amarelas que aqui se misturam com os detritos humanos numa comunhão de podridão». É a matéria a decompor-se: o puro deu lugar à podridão.
Nos dias de hoje há que somar a estes os resíduos industriais, os esgotos, os plásticos e as bactérias causadoras das mais diversas doenças. Será que a ‘mãe Ganges’ ainda consegue purificar isto tudo?