terça-feira, 08 set. 2026

O sadismo de Dante

Dante e Vergílio chegaram ao oitavo círculo do Inferno, onde cumprem pena os fraudulentos.

Dante e Vergílio chegaram ao oitavo círculo do Inferno, onde cumprem pena os fraudulentos. À sua volta, esvoaçam demónios com nomes sugestivos: Cagnazzo - canzarrão; Barbariccia - barba eriçada; Graffiacane - esfola-cães; Ciriato - porco; Farfarello - diabrete.

O poeta está aterrorizado.

«Já os pelos eriçados me atravessa

o pavor e atrás vou olhando atento».

E não é caso para menos. Vergílio, sabendo que correm perigo, protege-o com um gesto paternal - «levando-me consigo sobre o peito,/ como seu filho».

Já a salvo, vão deparar-se mais adiante com um lago de gelo. «Lívidas», «as almas lastimosas lá gelavam,/ batendo aos dentes notas de cegonha». Que imagem de pura desolação! As cegonhas batem o bico quando estão com medo, as almas fazem-no certamente por causa do medo e do frio.

Como se não bastassem tais suplícios, Dante acerta com um pontapé na cabeça de uma. «Tu quem és que […] nas caras dos outros acertas co as botas»?, pergunta-lhe o condenado. O poeta promete-lhe fama («teu nome posso pôr em minhas notas») - mas a alma recusa, e compreende-se. Não quer ficar fixada para a posteridade naquela triste situação, com o seu nome a arrastar pela lama.

E aqui revela-se um Dante fanfarrão, bem diferente do que ainda há pouco tinha os pelos eriçados de pavor.

«Então o segurei pelo cachaço

e lhe disse: ‘Mais val que te nomeies,

ou cabelo a cabelo te desfaço’.»

Quem diria que o distinto poeta era capaz de tal agressividade? Mas a crueldade máxima, parece-me, é atingida logo na página seguinte, quando encontram um homem que rói a cabeça de outro:

«como o pão por fome se manduca,

já seu dente ao de baixo o outro meteu

onde o cérebro vai ligar-se à nuca».

Quando lhe perguntam quem é, o desgraçado limpa a boca aos cabelos da ‘vítima’. E começa a falar:

«Queres que renove aquela

dor que treslouca e o coração espreme,

Só de pensar, antes que fale dela».

Trata-se do conde Ugolino della Gherardesca, que nas lutas entre guelfos (apoiantes do Papa) e gibelinos (apoiantes do imperador romano-germânico) no século XIII, acabou derrotado. «Em 1288, a facção gibelina revoltou-se», escreve o tradutor Vasco Graça Moura em nota de rodapé, e «Ugolino foi fechado numa torre com dois filhos e dois netos e foram deixados morrer à fome em 1289».

É essa dor dilacerante que o conde della Gherardesca vai ter de reviver para satisfazer a curiosidade do poeta. Repare-se: não apenas foi trancado numa torre e deixado a morrer à fome; completamente impotente, ainda teve de assistir à morte dos seus filhos e netos. Na dramática descrição de Dante, estes, ao vê-lo morder as mãos de desespero, interpretam esse gesto como fome e pedem-lhe que os coma antes a eles:

«Pai, bem menos nos anoja que de nós comas: e se nos vestiste destas míseras carnes, nos despoja.»

Depois deste final tremendo, Ugolino é condenado ao nono e último círculo do Inferno, onde rói a cabeça de um inimigo para todo o sempre. Caramba, não tinha ainda sofrido em vida o suficiente?

Apeteceria dizer que Dante tinha traços de requintado sadismo, não fosse o uso dessa expressão um grosseiro anacronismo, uma vez que o Marquês de Sade só nasceu em 1740, mais de quatrocentos anos depois de Dante ter escrita a sua obra-prima. Uma comédia divina, sim, mas que não dá assim tanta vontade de rir.