segunda-feira, 14 set. 2026

O palácio, a cabana e a casa minimalista

Em outubro de 1911, chegava a Cambridge um jovem austríaco de 22 anos que procurava perceber se valeria a pena estudar filosofia ou se iria apenas perder o seu tempo.

Em outubro de 1911, chegava a Cambridge um jovem austríaco de 22 anos que procurava perceber se valeria a pena estudar filosofia ou se iria apenas perder o seu tempo. Tinha formação em engenharia e aeronáutica - e fora o seu interesse por questões mais abstratas que levara um professor alemão a aconselhá-lo a procurar Bertrand Russell, então o mais destacado pensador no domínio da lógica, que dava aulas no Trinity College.

Em Cambridge, o jovem rapidamente ganhou fama de génio difícil. «Cada conversa com Wittgenstein era como passar pelo dia do Juízo Final», queixava-se um professor. «Terrível».

Ludwig Wittgenstein nascera no seio de uma família ilustre, o mais novo de oito filhos. O pai, Karl, era um industrial do aço riquíssimo e poderoso, que o New York Times viria a descrever, no seu obituário, como ‘o Carnegie austríaco’.

Como explica Anthony Gottlieb na apaixonante biografia recentemente publicada em Portugal - Ludwig Wittgenstein - Filosofia na Era dos Aviões -, a família cultivava as artes e protegia os artistas. Wittgenstein dizia que no palácio onde tinha crescido, em Viena, havia sete pianos de concerto (embora haja quem diga que eram ‘apenas’ quatro). Gustav Klimt fez um retrato de uma das suas irmãs. Os compositores Johannes Brahms, Gustav Mahler e Richard Strauss eram visitantes habituais, dando concertos para a família e amigos nos salões do palácio.

A vocação musical foi seguida por um dos oito irmãos. Mesmo depois de perder um braço na Grande Guerra, Paul continuou a ser um virtuoso dos teclados. Ravel escreveu para ele um fabuloso concerto (para piano e orquestra) para a mão esquerda, que ao ouvirmos hoje não conseguimos acreditar que pudesse ser tocado com uma só mão.

Tal como Paul, também Ludwig combateu na Grande Guerra - e recebeu várias distinções por bravura. Em 1918, no final do conflito, pediu uma licença e isolou-se em casa de um tio para escrever a sua primeira grande obra, o Tractatus Logico-Philosophicus. Com uma organização esquemática, revela aí a sua desconfiança pela linguagem comum - acreditava que era em grande parte o mau uso que fazemos das palavras que nos conduz a conclusões erradas. Sem falsas modéstias, Wittgenstein estava convencido de que nesse livro tinha resolvido de uma vez por todas as questões da filosofia que realmente importavam.

Mas o Tractatus, com a sua linguagem reduzida ao osso, aponta para outro aspeto fascinante da personalidade do filósofo: o despojamento. Ele que fora criado num opulento palácio, imediatamente antes da guerra descobrira numa cabana junto a um fiorde na Noruega o refúgio perfeito.

O luxo decididamente não o seduzia. Aquando da morte do pai, renunciara ao seu quinhão da fabulosa herança. E quando se cansou de Cambridge, assumiu o papel de professor primário na Áustria rural. É uma escolha um tanto estranha se pensarmos o quanto lhe repugnava explicar-se. Gottlieb cita um amigo que lhe sugeriu que sustentasse melhor as suas ideias: «Disse-lhe que não se devia simplesmente afirmar […] mas ele disse que os argumentos estragam a beleza, e que se sentiria como se estivesse a sujar uma flor com as mãos enlameadas».

Engenheiro, filósofo, soldado, asceta, professor primário. Ainda não é tudo. Depois de um episódio em que terá agredido um aluno, Wittgenstein abandonou o ensino e tornou-se jardineiro num mosteiro. Ainda equacionou tornar-se monge. Mais fecunda foi a sua curta carreira como arquiteto, quando a irmã Margarethe (a tal que fora pintada por Klimt) o convidou a desenhar a sua nova casa.

Atirou-se a essa tarefa com uma dedicação metódica e obsessiva, dando atenção não apenas às paredes - brancas, obviamente -, volumes e espaços, mas também às portas, às molduras das janelas, maçanetas, torneiras e radiadores. O resultado é uma espécie de teorema de cimento e vidro. Uma casa na melhor tradição minimalista, com um rigor austero que, ao que consta, não era o lugar mais aprazível para viver.