Não foi fácil para F. D. Roosevelt encontrar um embaixador para Berlim, onde, pouco tempo antes, tinha assumido o poder uma fação radical liderada por um político profundamente carismático, com um bigode peculiar, conhecido pelos seus discursos inflamados e pelas invetivas contra os judeus.
O momento era delicado, perigoso, mesmo. Os mais qualificados para o lugar escusavam-se a aceitar o convite, alegando constrangimentos familiares ou compromissos na América que não podiam descurar. Outros eram simplesmente inadequados para um posto tão importante e tão sensível.
Até que alguém sugeriu ao Presidente americano o nome de um discreto académico de Chicago. Ao contrário da esmagadora maioria dos diplomatas de carreira, William E. Dodd não possuía fortuna pessoal nem pedigree familiar, mas jogava a seu favor ter estudado na Alemanha nos seus tempos de universitário, motivo pelo qual sabia falar o alemão. Austero e de uma integridade a toda a prova, pouco dado à intriga e às astúcias políticas, Dodd foi a quinta ou sexta escolha para o cargo – mas obviamente ninguém lho disse.
A violência andava então à solta nas ruas da capital alemã. Havia relatos de perseguição a judeus, bem como de estrangeiros espancados só por não cantarem um hino nacionalista ou não fazerem a saudação nazi.
Com a sua simpatia pela Alemanha e pelos alemães adquirida enquanto estudante universitário, Dodd considerava ainda assim que se devia dar uma oportunidade ao regime. Cativá-lo e chamá-lo à razão, em vez de o hostilizar.
Quando esteve pela primeira vez cara a cara com o chanceler, no outono de 1933, o embaixador ficou talvez mais impressionado com os longos corredores da chancelaria e com o enorme gabinete do que com o homem que o ocupava. «A reunião depressa chegou ao fim», escreve Erik Larson em No Jardim dos Monstros. «Durara quarenta e cinco minutos. Ainda que a sessão tivesse sido difícil e estranha, Dodd saiu da chancelaria convicto de que Hitler falava com sinceridade em relação a querer a paz».
Ingenuidade? Na verdade, Hitler era um enigma que poucos conseguiam decifrar. Uns quantos anteviam já os perigos que se avizinhavam; outros subestimavam-nos; outros ainda – a maioria – estavam hipnotizados por uma promessa de grandeza que parecia cada vez mais perto de alcançar.
Hitler quereria a guerra ou a paz? Na altura poucos saberiam dizer. Hoje sabemos. Entre os méritos de Larson está a forma como reconstitui os ambientes e os estados de espírito; mas também como nos mostra os acontecimentos não da perspetiva da História, antes como se estivéssemos a vê-los a desenrolar-se à nossa frente. Por outras palavras, com os olhos daquela época, não com os nossos.
Isso já de si seria uma proeza fantástica. Mas quando se trata de um período tão nosso conhecido, tão estudado e – ousaria dizer – tão repisado como este, mostrá-lo com a frescura de uma primeira vez mostra um autor de eleição, algo de que, aliás, começámos a suspeitar desde a primeira página.