terça-feira, 21 jul. 2026

O bosque dos suicidas

Vimos a saber que o bosque é composto por almas que se transformaram em plantas bravias. Mais concretamente, por almas de suicidas, que tiraram a si mesmos a vida, e cujos corpos, presos em farrapos nas silvas, não poderão jamais recuperar.

«No meio do caminho» da sua vida, Dante viu-se numa «selva escura […] que de temor renova à mente a agrura»... Na passada semana, explorei aqui algumas ligações da Divina Comédia ao Renascimento - ligações essas que possivelmente corroboram a tese do historiador de arte alemão Erwin Panofsky, que defendeu que, além do Renascimento propriamente dito, houve ‘renascimentos’ em períodos anteriores da arte ocidental.

Mas claro que há também aspetos tipicamente medievais na obra-prima de Dante. Logo para começar, esta ideia do Juízo Final e da distribuição das almas entre o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Mas também esse início que citei: «No meio do caminho em nossa vida/ eu me encontrei por uma selva escura». A selva, na Idade Média, era o domínio do desconhecido, dos animais selvagens - e também das bruxas -, cheio de perigos e armadilhas, onde era fácil uma pessoa perder-se. Pois bem, Dante perde-se nessa «selva escura» e desemboca na entrada do Inferno. Curiosamente, usa a expressão «eu me encontrei» - quem sabe porque no final da sua jornada pelos três domínios do Além acaba por encontrar o verdadeiro sentido da vida.

Seja lá como for, é inevitável que também o leitor contemporâneo se sinta às vezes perdido na floresta de significados da Divina Comédia. Segundo o crítico George Steiner, «todos os textos - fabulosos, históricos, mitográficos, litúrgicos, filosóficos, sagrados, profanos - estão presentes para fins de alusão e citação» no poema de Dante. Um denso emaranhado de referências, portanto, que não nos é familiar e que faz - pelo menos no meu caso - com que nem sempre seja fácil apanhar o fio à meada.

Assim, o que nos fica da leitura são muitas vezes episódios e imagens. Como aquele no Canto XIII em que Dante e Vergílio, no círculo VII do Inferno, vão dar a um bosque «sem caminho assinalado».

«Sem fronda verde, mas na cor bem fosco; sem ramo liso, aos nós, tortos, bicudos, sem pomo, mas com muito espinho tosco».

Trata-se de um bosque sumamente desolador e desolado, cujas plantas não têm qualquer folhagem - foi comida pelas terríveis harpias - nem dão frutos.

Enquanto caminham, Vergílio, o guia do poeta, avisa Dante para que não colha sequer «um raminho a qualquer planta». Mas ele, como um aluno distraído ou desobediente, não consegue conter-se e parte mesmo um raminho de uma silva.

De imediato, o tronco começa a gritar: «Quem me quebranta?». E depois, já a sangrar: «Assim me dilaceras?».

Vimos a saber que o bosque é composto por almas que se transformaram em plantas bravias. Mais concretamente, por almas de suicidas, que tiraram a si mesmos a vida, e cujos corpos, presos em farrapos nas silvas, não poderão jamais recuperar.

É uma cena impressionante. Ramos tortos e espinhosos, plantas atormentadas que sangram, sofrem (pois as dentadas das harpias são para elas dolorosas) e até falam e gemem. Podia quase ser um cenário de um conto de fadas, de um desenho animado da Disney ou de um filme de terror contemporâneo. Mas não, é o Canto XIII da Divina Comédia, onde Dante avisa: atenção, isto é o que acontece aos que são violentos contra si próprios.