Segundo as notícias que nos chegam da Índia, dezenas de pessoas morrem naquele país todos os anos vítimas de ataques de tigres. Pior: mais de uma centena morrem por ataques de leopardos. Ali, os magníficos felinos não estão confinados a reservas naturais ou atrás das grades de jardins zoológicos. Convivem, nem sempre pacificamente, com os humanos.
Mas o que dizer então dos mortos por mordeduras de cobras, que se estima, em pleno século XXI, que andem entre os 50 e os 60 mil num só ano na Índia? A víbora-de-escamas-serrilhadas, a naja-indiana, a krait-comum e a víbora-de-russell – só os seus nomes quase provocam suores frios… – são as mais letais.
Serve este pequeno preâmbulo para nos transportar para um território partilhado por homens e animais, sem que uma fronteira nítida os separe. Falo de fronteira física mas também mental.
Aristóteles definiu celebremente o homem como um animal racional, colocando-o assim numa categoria à parte dos demais membros da fauna planetária. Mas nalgumas partes do Oriente a história é outra.
Regresso aos Cadernos de Benares, de Ana Marchand, em cujas páginas se reproduz o texto que o italiano Maurizio Piscicelli escreveu aquando da sua visita àquela cidade em 1913: «As vacas sagradas misturavam-se com a multidão, e desciam ao rio a comer as coroas de flores que flutuavam ao longo da margem; os gansos, aves sagradas de Brahma, enchiam-se também eles com pétalas de zínia; dos ficus gigantes desciam tranquilamente para a água os macacos. […] São também eles animais sagrados. Toda a gente sabe que foram eles os primeiros habitantes da Índia».
O bestiário continua por aí adiante – «o búfalo sagrado de Rama, o bode sagrado de Agni, o pavão sagrado de Kartikeya, o rato sagrado de Ganesha»…
Este convívio, para nós ocidentais a roçar a promiscuidade, entre homens e bichos, segundo Piscicelli podia assumir formas ainda mais extravagantes. «Às vezes entravam no templo pequenas vacas, que andavam de cá para lá como se em sua casa, ou então deitavam-se e dormiam. As suas fezes eram recolhidas pelos sacerdotes para fazerem pó sagrado e também pelas mulheres, que com elas faziam um pó que esfregam na testa no primeiro dia de menstruação para se purificarem». Original forma de purificação esta, com excrementos…
E assim chegamos ao exemplo mais extremo, agora dado por Elena d’Aosta (também tirado do livro de Ana Marchand), princesa francesa que viajou com Piscicelli em 1913: «Os jains pertencem a uma seita cujos membros não devem matar nem fazer mal a qualquer ser vivo; levam tão longe esta teoria que só bebem através de um véu, pois receiam, ao fazê-lo, engolir quaisquer animálculos que pudessem estar na água». É de facto de um zelo espantoso. Continua Elena d’Aosta: «Já tem acontecido que alguns jains paguem a um homem de casta inferior para que se sente num colchão cheio de percevejos apenas para que esses insetos possam alimentar-se dele».
No fundo, trata-se de uma espécie de sacrifício humano: um indivíduo que é servido como prato principal para ser comido vivo por percevejos. Onde acaba o respeito pelos animais e começa a falta de respeito pelo sacrificado? Note-se que os jains não dão o seu sangue aos insetos. Pagam, e volto a citar, «a um homem de casta inferior».
Talvez resida aí a chave do mistério. Um país onde as vacas andam à vontade pelos templos mas onde há 200 milhões de almas de uma casta tão baixa que é considerada intocável; onde há quem beba através de um véu para não «fazer mal a qualquer ser vivo» mas ofereça um homem como banquete aos percevejos. Eis as contradições da Índia em todo o seu esplendor.