sexta-feira, 12 jun. 2026

O banquete dos percevejos

Trata-se de uma espécie de sacrifício humano: um indivíduo que é servido como prato principal para ser comido vivo por percevejos

Segundo as notícias que nos chegam da Índia, dezenas de pessoas morrem naquele país todos os anos vítimas de ataques de tigres. Pior: mais de uma centena morrem por ataques de leopardos. Ali, os magníficos felinos não estão confinados a reservas naturais ou atrás das grades de jardins zoológicos. Convivem, nem sempre pacificamente, com os humanos.

Mas o que dizer então dos mortos por mordeduras de cobras, que se estima, em pleno século XXI, que andem entre os 50 e os 60 mil num só ano na Índia? A víbora-de-escamas-serrilhadas, a naja-indiana, a krait-comum e a víbora-de-russell – só os seus nomes quase provocam suores frios… – são as mais letais.

Serve este pequeno preâmbulo para nos transportar para um território partilhado por homens e animais, sem que uma fronteira nítida os separe. Falo de fronteira física mas também mental.

Aristóteles definiu celebremente o homem como um animal racional, colocando-o assim numa categoria à parte dos demais membros da fauna planetária. Mas nalgumas partes do Oriente a história é outra.

Regresso aos Cadernos de Benares, de Ana Marchand, em cujas páginas se reproduz o texto que o italiano Maurizio Piscicelli escreveu aquando da sua visita àquela cidade em 1913: «As vacas sagradas misturavam-se com a multidão, e desciam ao rio a comer as coroas de flores que flutuavam ao longo da margem; os gansos, aves sagradas de Brahma, enchiam-se também eles com pétalas de zínia; dos ficus gigantes desciam tranquilamente para a água os macacos. […] São também eles animais sagrados. Toda a gente sabe que foram eles os primeiros habitantes da Índia».

O bestiário continua por aí adiante – «o búfalo sagrado de Rama, o bode sagrado de Agni, o pavão sagrado de Kartikeya, o rato sagrado de Ganesha»…

Este convívio, para nós ocidentais a roçar a promiscuidade, entre homens e bichos, segundo Piscicelli podia assumir formas ainda mais extravagantes. «Às vezes entravam no templo pequenas vacas, que andavam de cá para lá como se em sua casa, ou então deitavam-se e dormiam. As suas fezes eram recolhidas pelos sacerdotes para fazerem pó sagrado e também pelas mulheres, que com elas faziam um pó que esfregam na testa no primeiro dia de menstruação para se purificarem». Original forma de purificação esta, com excrementos…

E assim chegamos ao exemplo mais extremo, agora dado por Elena d’Aosta (também tirado do livro de Ana Marchand), princesa francesa que viajou com Piscicelli em 1913: «Os jains pertencem a uma seita cujos membros não devem matar nem fazer mal a qualquer ser vivo; levam tão longe esta teoria que só bebem através de um véu, pois receiam, ao fazê-lo, engolir quaisquer animálculos que pudessem estar na água». É de facto de um zelo espantoso. Continua Elena d’Aosta: «Já tem acontecido que alguns jains paguem a um homem de casta inferior para que se sente num colchão cheio de percevejos apenas para que esses insetos possam alimentar-se dele».

No fundo, trata-se de uma espécie de sacrifício humano: um indivíduo que é servido como prato principal para ser comido vivo por percevejos. Onde acaba o respeito pelos animais e começa a falta de respeito pelo sacrificado? Note-se que os jains não dão o seu sangue aos insetos. Pagam, e volto a citar, «a um homem de casta inferior».

Talvez resida aí a chave do mistério. Um país onde as vacas andam à vontade pelos templos mas onde há 200 milhões de almas de uma casta tão baixa que é considerada intocável; onde há quem beba através de um véu para não «fazer mal a qualquer ser vivo» mas ofereça um homem como banquete aos percevejos. Eis as contradições da Índia em todo o seu esplendor.