quarta-feira, 09 set. 2026

Mergulhar no mundo de Ulisses

Velázquez pintou Hefesto na sua forja subterrânea num momento-chave.

As aparências iludem, lá diz o ditado – ou, numa versão mais popular, ‘quem vê caras não vê corações’. Lembrei-me disso a propósito de um livrinho que tinha guardado há uns poucos de anos e que fui buscar à estante por estes dias. Chama-se O Mundo de Ulisses e é assinado pelo historiador norte-americano Moses Israel Finlay. Perseguido durante o Macarthismo devido às suas simpatias marxistas, acabou por estabelecer-se em Cambridge, tendo sido um dos primeiros vencedores do prestigiado prémio Wolfson de História, em 1974.

Se digo que as aparências iludem é porque este livro esguio de umas meras 140 páginas se revela mais denso e complexo do que à primeira vista se suporia. Não é coisa para ler à pressa, até para podermos assimilar as pequenas lições que nos vai oferecendo. Um exemplo: «Foram necessários aos Gregos mais de mil anos para adquirir um nome que lhes fosse próprio – e, nos nossos dias, têm dois. Na sua própria língua chama-se Helenos e o seu país é a Hélada. Graeci é o nome que os Romanos lhes deram e que mais tarde foi adoptado, de uma maneira geral, na Europa. Na Antiguidade, os seus vizinhos orientais usavam ainda um terceiro termo: Jónios […]. Estes três nomes são recentes, nenhum deles figura em Homero.» Na Ilíada e na Odisseia, a designação mais comum é Aqueus.

Falar em Gregos, portanto, ainda que cómodo, pode ser enganador. Até porque eles estavam muito dispersos: «Encontravam-se colónias gregas não somente em toda a extensão da Grécia actual como também no litoral do Mar Negro, nas costas da actual Turquia, na Itália do Sul e na Sicília Oriental, na costa do norte da África e no litoral mediterrânico de França», diz-nos o autor. «No interior desta elipse de uns 2500 km de comprimento, encontravam-se centenas e centenas de comunidades que amiúde diferiam na sua estrutura política e afirmavam sempre a sua soberania. Nem então nem em nenhuma outra altura, no mundo antigo, houve uma nação, um território nacional único regido por uma lei soberana que se tenha chamado Grécia (ou um sinónimo de Grécia)».

E, agora, nova revelação: «Um tal universo não podia produzir uma mitologia nacional unificada e coerente. Nos primeiros séculos, quando a criação do mito se encontrava no estádio mais essencial e vivo do seu desenvolvimento, os mitos sofriam uma constante alteração». Eis por que existem tantas e tão diferentes – muitas vezes até contraditórias – versões dos mitos.

Mas ainda não mergulhámos verdadeiramente no mundo de Ulisses. Segundo Finley, esse mundo «era o da pastorícia e não o da lavoura». «O solo grego», continua, «é pobre, pedregoso e seco: apenas se pode cultivar 20% da superfície total. […] Os domínios […] compreendiam o mínimo indispensável de lavoura e de plantações, sobretudo de pomares e vinhas; mas era com os animais que contavam para o vestuário, a tracção, o transporte e uma grande parte da alimentação».

Os aristocratas tinham muitos servidores e viviam em propriedades quase auto-suficientes. Já nas casas dos outros todos (dos «não-aristocratas») «a penúria era crónica, por vezes total».

O comércio – que estava nas mãos de fenícios – não era visto com bons olhos. E o trabalho manual também não.

De forma um tanto paradoxal, o autor considera o trabalhador por conta de outrem ainda mais infeliz do que o escravo. Porque ao escravo não restava alternativa, mas ao homem livre sim, e colocar-se voluntariamente sob o jugo alheio era quase uma infâmia.

Finley brinda-nos com um belo exemplo. Os deuses, como sabemos, «incarnavam todos atributos e actividades nobres». Mas quem fazia as flechas de Apolo e as armas de Ares, o deus da guerra? Para cumprir essa função criaram Hefesto. Uma divindade – só que com um estatuto diferente.

«De todos os deuses, apenas Hefesto era ‘um monstro enorme e coxo’ com ‘um pescoço possante e um peito cabeludo’». Curiosamente, este monstro coxo vivia com a mais bela das deusas, Afrodite.

Muitos séculos mais tarde, Diego Velázquez pintou-o na sua forja subterrânea no ato de fabricar a armadura de Ares, no preciso instante em que Apolo lhe comunica que Afrodite se encontra a dormir justamente com o deus da guerra. Hefesto é apanhado de surpresa.

Furioso, monta uma rede de metal que acaba por apanhar os amantes em flagrante delito e expõe-nos aos deuses do Olimpo. Só que estes, ao invés de se indignarem, desatam numa risota!

Veja-se bem:_de todos os deuses, o único que trabalha é um «monstro enorme e coxo», de «peito cabeludo», que tem a sua forja num subterrâneo, é enganado pela mulher e ainda alvo de chacota por parte dos outros deuses. Talvez não haja melhor prova do desprezo que havia pelo trabalho no distante mundo de Ulisses.